Eu apanho umas flores brancas do lado de fora da igreja. Meus parentes se encontram. Pela primeira vez vejo-os conversando baixo. O dia parece celebrar a morte. Sinto o cheiro desagradável dela. É incômodo, não sei porquê. O sol brilha intensamente como se minha avó não estivesse morta.
É estranho. Ontem eu estava pulando, cantando e dançando na rua enquanto alguém não conseguia respirar mais. Acordei de manhã cedo logo com essa notícia: sua avó morreu! Como assim? Perguntei.
Ela parou de respirar meu filho, disse minha mãe com um olhar de pena para mim. Fiquei sério porque todos em minha volta estavam sérios enquanto algumas tias choravam e os meus tios permaneciam mudos.

Parece que é assim.
A gente está feliz, contente em nossa fantasia e de repente algo se choca contra a gente. A realidade vem com toda força na direção das nossas ilusões. Sempre contra a nossa vontade.
Eu sei que sou pequeno demais para entender estas coisas. Mas eu penso, ao contrário do que sempre ouço: criança não pensa. Percebo que a morte cala a gente, pois pouco se fala neste momento. Só ficam as expressões de tristeza e desespero. Mãos sufocam o choro alto. Abafam a histeria contida.

No salão da igreja, as pessoas parecem falar em códigos secretos. Eu não os decifro, mas imagino que deva ser coisas duras de se dizer, por isso evitam falar perto das crianças. Meus irmãos estão fora da igreja, correndo, brincando com os meus primos como se nada tivesse acontecido. Mas olhando todos os adultos, percebo que o sofrimento requer postura e silêncio. A dor é muda.

Aprendo que palavras não expressam o que a gente sente, quando mais se sente. Principalmente a dor de viver e a dor de perder. Parece que a vida dança alegremente com a morte enquanto nós, eternas crianças amedrontadas pela cultura do medo, ficamos imobilizados diante dos pensamentos advindos dela.

Eu tento alcançar o rosto da minha avó me apoiando na alça de ferro do caixão enquanto levanto minhas pequenas pernas, mas não consigo enxergá-la. Entendo que a morte não tem rosto, como a vida que parece um quadro embaraçosamente cinza, pronto para ser pincelado por um pintor desencantado e triste.

Proferem-se algumas palavras em tom quase inaudível. Eu respeito a dor deles e não pergunto nada. Entendo que a maioria dos homens da minha família choram com palavras ou escondidos no banheiro. Então aprendo que só posso chorar quando alguém morre, e que devo me esconder para isso. Rapaizinhos não choram, minha tia sempre diz, como a minha mãe e como a minha avó, que agora se aprofunda em seu silêncio eterno.

Eu sinto uma dor me esmagar e corro para os fundos da igreja. Estou quieto e seguro. Ninguém pode me ver. Minhas lágrimas caem involuntariamente. Sinto vergonha de mim.
Nenhum homem chorou na minha frente. Talvez eles tenham conseguido. Mas eu não. Sempre fui mais sensível que os meus irmãos. Meu pai sempre diz que minha mãe deu a luz a uma menina. Que eu nasci errado. Era para a minha irmã ter nascido na minha vez, assim ficaria certo talvez.

Como a dor que é inevitável, o choro deveria ser livre. E eu me sinto humano agora. Me sinto um garoto do mesmo jeito. Sinto uma reprovação vindo em minha direção ao lembrar do meu pai. Ele não vai gostar de saber quando eu disser. Porque sempre digo sem querer, o que faço sem querer. E sempre sou punido por isso.
Parece que a mentira tem um valor fundamental na minha família. Todos agem assim: na falsidade de si mesmos. E enganando uns aos outros, eles parecem se entender melhor. Talvez até sejam verdadeiros desse modo. Sem a teatralidade, a vida deles poderia ser um caos que só.

Enquanto enxugo minhas lágrimas, sinto um prazer enorme de me lembrar que estou num velório. Diante da morte, tudo que está escondido ou sucumbido, revela-se, transborda-se. Eu me sinto livre de todas as neuroses adquiridas em casa.
Volto para o salão como se nada tivesse acontecido. Fingindo ser o rapaizinho que papai sempre quer que eu seja. E que mamãe sempre gosta, pois vou bem na escola. Minhas professoras sempre me elogiam. Eu sei que não posso desapontar, afinal eu nasci errado. Minha irmã tinha que ter nascido primeiro.

Vou pra perto do caixão. Não quero que a vovó parta se sentindo sozinha. Deve ser a pior coisa na última instância de vida de alguém, se é que a consciência persiste em algum lugar e a lucidez resiste até tudo se apagar. Ela deve estar muito assustada, eu imagino. Então eu tento acalmá-la e tento abraçar a cama de madeira inteira, mas não consigo. Meus braços são curtos demais.
Quero que ela se sinta amada e acompanhada nesse caminho em direção ao desconhecido, à iminente escuridão da qual sempre tememos.

O padre fala algumas coisas bem baixinho, que eu não entendo.
Meus tios pedem para eu me afastar. Eu me afasto enquanto eles se aproximam da cama estreita de madeira e tampam o rosto da minha avó.
Eu sinto que minha avó está desesperada.

Para onde ela está indo?
Para onde estão levando ela?
E se ela ainda estiver respirando?

Eu tenho que ficar quieto, senão apanho atrás da igreja. Meu pai sempre me bate escondido quando eu ajo de forma inadequada. O problema é que sou desajeitado com as palavras e com as pessoas. Sempre sou inadequado. Faço perguntas quando se deve ficar calado. Me calo quando me fazem perguntas. Sou medroso. Tenho medo das pessoas e do mundo inteiro.

Eu tento me conformar com a fatalidade. Me dói mais uma vez o peito. Uma dor imensa que não dá para conter. Meus olhos ardem e eu não deixo as lágrimas escorrerem. Eu tento me contentar com as boas e as más lembranças, com as palavras mal ditas e com a timidez excessiva. Com o meu bom comportamento quando sou bem obediente e com a minha rebeldia. Nunca pensei que teria que acertar as contas com a morte tão cedo.

Ouço meus tios falando uma palavra estranha, que nunca tinha ouvido antes:
Remorso.
Eu não quero ter isso, diz uma das minhas tias, enxugando o rosto.
Eu não sei o que eles querem dizer, mas imagino que deva ser algo ruim. Ninguém fala de coisa boa chorando.
Tento em minha imaginação, onde as palavras navegam livremente, tentar encontrar algum sinônimo ou alguma palavra que se encaixe com remorso. Eu pesco a palavra culpa.
Remorso se parece com a palavra culpa. As duas parecem pesadas. Acho que é isso mesmo. Se alguém deve algo a alguém, é melhor que resolva, aprendo.
Imagino que minha tia tenha que se desculpar por alguma coisa à minha avó, mas não sei o que é. Mas como se desculpar com os mortos? Ah, é isso! Remorso é isso. É a culpa de não ter se desculpado por não poder mais se desculpar. Acho que o remédio vai ser chorar junto das velas que derretem nos encontros anuais em Dia dos Mortos.

Todos estão indo em direção à cova.
Eu tento permanecer bem próximo a ela. Para ela não ficar chateada comigo. Não quero sentir culpa pro resto da vida. Então jogo minhas flores brancas por cima do caixão. Tá ficando doido garoto? Diz meu pai furioso.
Quer derrubar sua avó?
Eu fico calado.
Mais tarde sei que vou apanhar.
Eu sou muito desajeitado. Já pedi a Deus para me curar disso.
Eu não faço por maldade. Ele sabe disso.
Nunca faço por maldade.

Eu me afasto do caixão para evitar acumular mais surras. Eu tenho vontade de abraçar o caixão e pedir perdão a qualquer coisa que fiz, que tenha magoado ela. Mas não posso. Então entendo que tudo um dia acaba. Que tudo um dia morre, desce, cai e emudece. Me esmaga pensar que mamãe e papai também vão cair um dia e ficar em silêncio profundo. Eu cato mais dois raminhos de flores para vovó.
Todos estão parados.
Há um grande buraco na terra, em volta de milhares de túmulos com anjos pensativos, outros cabisbaixos. Agora vejo quase todos chorarem. A histeria contida ganha seu espaço e sua vitalidade. Eu quero me perdoar mais uma vez e desejar que a vovó um descanso no céu. Jogo um raminho de flores amarelas como mais um pedido de desculpas pelas coisas que devo ter feito de mal e um raminho de flores brancas para ela encontrar a paz.
Eu não quero que ela se vá.
Então desejo intensamente em minha alma:
Venha me atormentar vovó.
Não me deixe aqui sozinho.

E ela desceu encaixada naquela cama dura que mal dá para se mover.
A vida é curta.
A gente mal nasce e já começa a morrer.

 

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