Eu preciso de fôlego
Eu estou sendo sufocado
Por carros que passam sobre mim
Por rostos curiosos que me condenam
Pelos olhos que me reprovam
Pelas lágrimas que me cegam.

Vivo em círculos escuros
Procurando preencher as lacunas inconscientes
Tentando curar as feridas do passado
Tentando expulsar os fantasmas alimentados
Por uma infância interrompida,
Exterminada.

Minha vida é um quadro vazio
Há um borrão de tinta preta
Querendo me assustar
Tentando me dizer alguma coisa
O que ela quer?
Minha alma por completo?
Minha sanidade já tão frágil e insegura?

Tenho vivido entre prisões e labirintos
Buscando a cura para esse tormento infantil
Mas só encontro máscaras dançando uma canção mortal
Me congelando ao me olhar
Me desejando ao se aproximar
Me fazendo cair sem avisar.

Eu sinto o sangue escorrer palidamente
Gélido e fraco
A dor que me sufoca é dilacerante
E a angústia é atroz.

Eu caminho em círculos viciosos
Tentando encontrar a saída
Para todo este desespero
Mas nunca me reencontro
Só vejo assombro
E medo de viver
E mais medo.

Eu caio em pavor e delírio
A vida tem sido difícil
São contas demais para quem acabou de aprender
São cobranças demais para quem descobriu a dor
O espírito adoece e entorpece a mente
As doenças psíquicas nos consomem por completo.

Nuvens carregadas de desilusão me acenam
O sol negro chega sem medo
Os corvos dançam coletivamente
Em busca de carne humana,
Se alimentam das desesperanças
Das tristezas intermitentes.

Eu estou ardendo em dor
Minha vida tem sido um caos que implode no peito
Extirpando minhas vísceras
Expulsando os meus sonhos
Queimando minhas ilusões
Destruindo todas as minhas vãs filosofias.

Minhas mãos estão sujas do que acreditei
Eu só quero encontrar a paz tão ansiada
A alegria que sempre esperei.

Eu tenho medo da vida
Mas ainda é cedo pra morrer
Eu quero companhia
Mas amo a minha solidão.

Eu tento fazer as pazes com o passado
Mas é impossível
Eu sempre serei enganado
Pelo inconsciente amaldiçoado
Pelas sombras dos meus antepassados.

Eu nunca quis ser assim
Eu não escolhi existir
Esses demônios jamais se calam
Gritam em meus ouvidos
Estremecendo minha alma
Sangrando os meus pensamentos.

A dor está exposta ao abrir os olhos de manhã
O caos do mundo me chama e me obriga
Eu não quero fingir
Eu não quero representar nem mentir
Mas eu preciso vender este corpo
Que nasceu para se prostituir.

A tristeza é fértil e fecunda a morte mais silenciosa
Reprime qualquer chance de libertação
E a salvação de si mesmo está sempre fora de alcance
Mas não há alma no mundo que reprima as maldades do mundo
Então eu caio no abismo que só a minha mente produz.

Eu pareço estar condenado
A viver numa propaganda de mentiras absurdas
Toda a minha lucidez já não suporta
Tamanha teatralidade obscura.

Enxergar essa falsa realidade não é fácil
Quando se cria uma fantasia para sobrevier
Eu fui escolhido para sofrer
E desde então vejo minha mente se distanciar de mim
Sinto toda lucidez se esvaecer.

Minha sanidade é testada
Dia após dia
Eu tento esquecer o passado
Eu tento alcançar alguns passos
Mas os monstros que me habitam parecem se enfurecer
Então, cansado
Eu me entrego
E me deixo morrer.

Diante da própria morte,
Há um novo começo
Talvez pior,
Mas nunca melhor
Ou só muito mais do mesmo.

A vida é um eterno retorno da miséria que somos
Da ruínas que nos tornamos
Em busca de preencher os nossos vazios
Em busca de calar as nossas angústias.

Somos crianças crescidas
Brincando com a morte
Sempre caindo e tropeçando
Sempre acreditando que irá deter
Aquilo que é iminente a todos:
O nosso triunfante fracasso.

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