Depois de muito caminhar
Entre arbustos e abutres
Eu pude enxergar
Através dela,
Aquilo que involuntariamente
Todos os dias,
Tenho que carregar.

Entre pedras duras e secas
Em caminhos estreitos e sombrios
Sob minhas cascas expostas
À ventania e terremotos
Ela jamais se ausentou
Jamais me abandonou.

Comigo tudo sente
E tudo pesa sobre ela.

Entre sóis escaldantes e tempestades furiosas
Às vezes ela quebra em mim como um vendaval
E me derruba por semanas.

Entre minhas antenas
Quis me ‘antenar’ neste mundo
Achei que seria capaz
De tudo suportar.

Quis saber o que não me disseram
Quis entender o porquê
Quis desvendar os segredos ocultos
E desde então passei a falecer.

Tenho de períodos a períodos
Uma queda brusca em mim
Uma morte homeopaticamente lenta
Torturante,
Perversa
E sangrenta.

Desde que a aperfeiçoei
Tenho afundado com mortal intensidade
Em águas turvas e podres
Das ações animalmente humanas.

Tenho caído sem chance de gritar
Tenho sido empurrado sem chance de me preparar.
Então tenho conhecido o abismo de dores que há em mim
Entre o prazer e a dor de enxergar
E não se deixar engolir
Entre a alegria de saber e a tristeza de perceber
Que muita coisa não está ao nosso alcance
Muita coisa ainda precisa acontecer.

Que somos como formigas perdidas com os seus fardos
Se escondendo da chuva para não morrer.
Mas já estamos todos mortos
Só não queremos reconhecer.

No horizonte belo que o alto pensamento invade
Também encontrei solidão, desespero
E desafetos.
Me calei entre o silêncio que mata
Mas que o corpo paga
Entre os ecos dos meus gritos sufocados
E os choros abafados em forma s de sorrisos.

Meus olhos estavam cansados
Expostos à realidade que cega
Expostos à ilusão contínua
Entre o ethos e o pathos há uma doença
A cegueira diante da barbárie
A perversidade consentida
Assistida
Aplaudida.

Sob a luz pálida da lua fraca e cinzenta
Os pensamentos às vezes buscam repouso
E não encontram.
Os uivos dos lobos engravatados ensurdecem-me
A histeria dos adestrados intelectualmente me apodrece.

A esperança por aqui é passageira
O otimismo cego escorre em cenas diárias de violência
À carnificina que somos entregues ao participar do teatro do sistema.

Muitas vezes fui atacado
Em meu tórax fui atingido
Pelos desejos mal criados
Pelos sonhos esquecidos
Pelas sombras do iminente fracasso
A qual somos condenados por ainda insistirmos
Em dar sentido ao caos
Ao que nunca terá sentido.

Dia após dia,
Em ilusão ou alegria,
Somos derrotados
Pela ignorância que não nos esquece
Pela soberba que sempre nos enaltece.

Somos atormentados pelo o que nunca fomos
Assombrados pela eterna melancolia daquilo que nunca seremos.

Minhas pernas se agarram
Entre folhas secas e sem vida
Em um deserto de afetos nunca previsto na existência
Um homem pinta um quadro de crianças se abraçando
Uma obra ultra surrealista.
Para onde foi a nossa infância?
Para onde estão indo as nossas crianças?

Entre minhas patas
Percorro a pior estrada
A da consciência adquirida
Por saber além do que queria
Além do que se é
Além do que podia.

Em dias frios e nublados
Eu sou enterrado
E quase me velando,
Não me enfrento
Só deixo o sangue escorrer o veneno contido
Há tempos amargando os pensamentos e o espírito
E sangro calado,
Sozinho.

Às vezes não suporto o peso da mente
E minha cabeça de inseto dói
Dói tudo que sei
Tudo que ainda não sei
Tudo que não me alegra.

Dói o prazer de pensar
Dói-me o preço a pagar
Pela lucidez escassa e em extinção
Dói-me a realidade num mundo cheio de ilusão
O pensamento vaga solitário resistindo a insanidade
Se curvando do delírio coletivo
Abraçando a saudade de um tempo que nunca está vindo.

Por vezes eles me atingem o abdômen
Sofro de náusea
E numa crise gástrica
Sinto as dores do mundo me corroendo o estômago
Destruindo minhas vísceras

Às vezes passo fome
Sinto fome de vida digna
De oportunidades para todos
De sonhos se realizando
Em vez de trancados em camburão
E levados a celas de tortura e prisão.

Sinto fome de notícias de paz
De uma era sem guerras
E sem destruições das subjetividades
Onde as experiências recebam calor e não ‘nomes’
E não sejam vistas como algo imoral e pérfida
Que venham a constituir nossa saúde psíquica
E existencial.

O meu corpo é invertebrado
Com ele nunca suporto os fatos.

Às vezes os fatos me enterram
E eu caio em desgraça intelectual
Um inferno astral me devora
E os demônios me apavoram
Me desejando a loucura
Assistindo minha tortura.

Entre os meus espiráculos
Sangram prosas e versos
Das crianças mortas nas guerras
Dos meninos vendendo balas no asfalto
Dos indígenas violentamente catequizados.

Em minhas asas escorrem muito sangue
Dos transviados humanamente sem direitos
Dos corpos mutilados pela medicina
Dos corpos adestrados em campos de concentração modernos.

Mas às vezes,
Do caos que sou
Brota uma flor cinza
Bela,
Com vida
E sem cor.

Às vezes canso de me arrastar
Mas essa é a nossa condição
E sem salvação ou promessa
Eu perco às vezes a capacidade de voar.

Por vezes eu tento respirar
E subo até a superfície
E quando vejo os animais gritarem
Eu me escondo de medo novamente.

Na dor de existir
Enxergar é a nossa primeira violência
A segunda é sentir a dor
Mas a maior de todas ainda é ter consciência.

Eterno labirinto.

esculturas_cemiterio_09The Metamorphosis by Jezebel7

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