‘Movimente-se’.
Lembro-me de uma pregação de um pastor de uma igreja neopentecostal que eu frequentava enquanto tentava me ‘curar’ da minha sexualidade. Jesus disse: levante-se!
Ele dizia que não há milagres em esforço, sem movimento.
Aquilo ecoa em meus pensamentos até hoje.
Em dias de crises depressivas até poucos anos, eu me lembrava sempre deste verbo: levantar.
Era como se o deus que falou com aquele pastor estivesse falando comigo novamente. Claro, se não fosse pela minha memória. E se não fosse pela minha memória, deus nem existia, nem o pastor. Tudo seria alucinação, esquizofrenia pura e dolorosa.

O mundo sempre esteve nas sombras. E eu, sempre percorri estradas escuras e pavorosas. E contra as sombras, pouca coisa se pode, e se consegue. Os fantasmas que se sobrevivem da memória estão sempre vivos, latentes no consciente ou no inconsciente.
Lembro-me de me arrastar por várias semanas até conseguir atingir a energia novamente. Eu ficava por dias, semanas em total morbidez. Era como se uma chuva num dia cinzento abalasse o meu corpo, o meu espírito e os meus pensamentos.
Levantava como um idoso que não possuía força nos ossos. Porque por dentro eu talvez seja ainda sensível demais, ou um pouco frágil. Odiando ter que me movimentar, eu esperava uma recompensa: a luz. Eu acreditava que me esforçando, eu teria a recompensa dita pelo pastor. Eu receberia a vida de volta né? Quem sabe?
Sair da cama nestes dias era como enfrentar o corredor da morte, ir à forca ou algo mortal. É como me sinto diariamente ainda. Sair do aconchego do quarto, dos medos artificialmente calados é sempre aterrorizador. É sempre mortal por dentro. Eu sinto que a vida é a morte e a morte já é minha vida desde a infância.

Me ensinaram que os mortos não podem nada. Mas eu estava levantando das trevas aquecidas, da angústia nunca esquecida e da descrença sempre sentida. E de obrigação em obrigação eu me ocupava e ansiava a chegada da luz da vida. Não fazia isso por resignação cristã, mas por mim. Porque eu ainda acreditava que eu valia a pena viver.
E não temos muitas escolhas: ou se encara a morte de frente, ou ela te devora antes do prazo de validade da existência.

A melancolia é a morte do ‘eu’. É um ‘eu’ esvaziado, esvaecido com a poeira do mundo. Só sobra o corpo, fragmentado e adoecido.
Lembro-me de quando criança, ter desejado muito um boneco de um dos meus desenhos prediletos, os cavaleiros do zodíaco. Nunca pedi. E sinto esta perda até hoje. E perda é dor, é falta, é ausência de desejo. E desejo é pulsão de vida, e desejo saciado é prazer. Nunca pedi este boneco ao meu pai, um mecânico que em dias de folga se importava mais em saciar suas frustrações em álcool do que saciar desejos infantis de uma criança. Até hoje ouço em casa: fazer desejo de criança??? Como se os desejos fossem fabricados e estimulados somente por propagandas e deletados quando não são convenientes ao gosto dos pais.

Nunca pedi este brinquedo à minha mãe, pois esta cuidava da casa. E nunca pedi ao meu pai, porque ele sempre achava ofensivo os filhos lhes pedirem algo além do arroz, do feijão e da carne na mesa. O que vocês querem mais?
Quando pedia, ouvia-se muitos insultos, injúrias, raivas da vida eram expressadas à uma criança, ódios eram proferidos na maior gratuidade. O preço era sempre este: reprovação, incompreensão do sujeito e do sujeitado, raiva, ódio, ressentimento da vida em tons de violência verbal, simbólica e psicológica-emocional.

O desejo sobrevive no tempo e no espaço. Talvez a minha história seja a história da não-saciedade, da carência de afetividade, da falta de compreensão, da violência sempre presente em todas as formas.
Eu os jamais perdi. Todos eles sobrevivem em diversas formas em meu consciente ou em meu inconsciente. Às vezes eles implodem em tamanha angústia que sinto que vou enlouquecer. Tento canalizá-los na escrita, no conhecimento mas eles sempre resistem ao tempo. Talvez eu seja a falta presente, personificada em uma figura híbrida de um devir ser-gente, que ainda não está definida, nem concluída. Talvez eu seja a manifestação artística da perda precoce da inocência em meio às tentativas de suicídio da minha mãe e as tentativas de derrubá-la com as forças deste homem que era o meu pai.

Para fugir desta loucura, eu desenhava. Ficava por horas debaixo da mesa da tevê. Desenhava os personagens que eu mais gostava dos meus desenhos favoritos e com eles, criava um mundo de possibilidades. Um mundo que eu desejava viver naquela realidade. Essa sensação de liberdade que a imaginação traz era mágica e encantadora. Talvez eu encontrava na arte a arte de sobreviver ao descontentamento.
E como toda criança, eu acreditava em tudo que ouvia. Cresci acreditando que era a ovelha negra da família, o garoto que ia ‘dar trabalho’ quando fosse crescer. Minha auto-imagem fora destruída, sem sombra alguma de dúvida. Eu acreditava que era uma ameaça à ‘felicidade’ da minha família. Eu acreditava que era o destruidor do ‘lar doce lar’. Assim, deslocava o meu ego para o vazio, para o assombro da culpa, do ressentimento. Caminhando sempre pela sombra do arrependimento de estar existindo e incomodando. Minha subjetividade sempre estava na escuridão. Por medo que me agredissem ainda mais.
Eu ficava por diversas vezes só. Tomando chuva em cima da laje. Ouvindo o som de cada gota cair sobre o chão e sobre mim. As trovoadas das tempestades pareciam compor uma canção tão assustadora quanto a canção melancólica que persistia em mim. A minha história por muito tempo foi a história da negação de mim mesmo, por negar-me aos meus próprios desejos. E uma pessoa que se nega aos desejos mais básicos do instinto de vida humana, morre. Subjetivamente e corporeamente. O suicídio faz parte da composição desta estrada amaldiçoada.

Eu adoro o mar. Adoro sentar-me na areia e enxergar a imensidão do azul da água em encontro à imensidão azulada do céu. É uma das mais belas paisagens naturais neste mundo. Desfruto desta capacidade de enxergar a beleza e sinto um misto de dor e prazer em viver. Dizem que os cegos só enxergam o escuro. Mas os que enxergam além do teatro posto no mundo, estão enxergando o escuro também. Embora eu adore o mar, morro de medo dele. Certa vez, quando criança, me joguei às águas de forma ingênua e livre. O mar quase me levou de vez. Por milhares de vezes em minhas crises depressivas, me perguntava: por que não me deixaram ir?
Depois de um tempo, comecei a creditar que algumas pessoas não morrem até cumprir o seu destino. E decidi encará-lo.
Pelas pegadas na areia, me vejo. São marcas profundas e molhadas. De lágrimas de tristeza e de medo. Tenho mais afinidade com o mar do que com as pessoas. Ali eu me vejo, me reencontro, me desejo. Desejo-me estar comigo. Porque estou em paz. A vida parece se esconder às vezes, porque não nos permitirmos. Viver razoavelmente bem consigo mesmo requer silêncio e segredo. A paz vem depois.

Dizem que a água é a vida. E digo que a água é vida como também é a morte. Depende da dosagem. E nos meus encontros com as minhas ‘faltas, perdas, repressões e ressentimentos’ eu deixo desaguar todas as dores. Deixo elas falarem para me deixar em paz, mesmo que temporariamente.
Preciso dormir.

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