Acordo como quem ressuscitou um monstro. Ao acordar, eu sinto ele perfeitamente vivo. Respirando ofegantemente. Eu estou ofegante.
O trauma, as dores ressentidas sobrevivem porque temos memória. A memória é o agente que auxilia na construção de quem nós somos, ou achamos ser. Diria até que é a partir da memória, é que as pessoas constroem ‘suas verdades’. Ao contrário, sem ela , perderíamos a nossa identidade, nossa história enquanto seres constituídos e construídos entre outros.
A dor move o mundo. E move todos. Conscientes ou inconscientes, todos estão fugindo dela. Por isso nos assustamos com o estranho, com o diferente, com o inesperado. Sentimos medo de sofrer, de sentir dor de novo. Em vez de encará-las, em vez de nos encararmos frente a frente, diante do reflexo triste e embaçado que enxergamos em frente ao espelho, nos acovardamos, pois vivemos numa cultura da covardia e da barbárie.

Acreditamos cegamente e religiosamente que matando os outros (o perigo constante em nossas vidas), estaremos matando os nossos monstros. Em um primeiro momento, eles até silenciam-se, mas a memória sempre os trazem de volta. Sempre os ressuscitam. Somos ensinados a atacar em vez de parar para pensar. O inferno são os outros? Como diria Sartre em sua peça ‘Entre Quatro Paredes?
Acredito que os outros constituem o nosso próprio inferno. Como nos constituem em tudo. O inferno só sobrevive porque lembramos. Porque criamos a nossa narrativa, com os outros. Lembrar é morrer e adoecer também. Tento imaginar como deve ser a dor de uma mãe que perde o seu filho de uma forma trágica? E se pedissem para ela escolher entre a vida de um e outro? A memória assombra, perturba essa narrativa que construímos através das emoções, das sensações, da estrada que percorremos, mas também escurece essa história que muitas vezes nem desejaríamos tê-la vivida, experimentada ou sentida.

Nossa história se constitui através de várias pessoas, de várias sensações, de vários momentos e de diversas dores, medos e angústias. Há os que sofrem de transtornos mentais, fisiológicos e até olfativos, palatativos. Vivemos entre o real e a ilusão que criamos, entre a sofreguidão da sanidade e o delírio sedutor. A história da nossa cultura é a história da negação do outro, do ressentimento e do apagamento alheio, como se o outro não fosse eu, como se fosse um não-eu. O outro sou eu, porque me constituí através dele. Negá-lo é negar a minha própria identidade em construção até agora. Nunca é pouco lembrar que nunca estamos ‘prontos’, ‘definidos’.

Estamos sempre nesse processo de constituição constante, de construção e de auto-descoberta incessante, se assim permitimos. Se assim desejarmos. Poucas coisas em nossas histórias são definitivas. Porque para desconstruir um processo de subjetivação tão primária, secundária, muitas vezes é necessário mais de uma vida, quem sabe até três. Uma vida é pouco, mas às vezes é o bastante para nos deixar marcas tão profundas quanto os traumas que carregamos.

A dor apaga o outro e nos coloca como vítimas deste, sendo este tão precário como nós mesmos somos e sempre seremos. A história das nossas dores não pode ser a história do apagamento alheio. Quando aniquilamos o outro, não estamos nos curando, mas só silenciando temporariamente nossos monstros que sobrevivem através da nossa memória. Sendo orgulhosos de nossas histórias ou orgulhosos ou não de quem somos ou não, estamos dia após dia tentando calar os nossos monstros. Estamos dia após dia, matando uns aos outros.

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