Eu estive preso
A tudo que me responderam.
Eu não escolhi nascer assim
Mas tenho estado com medo.

Eu cresci,
E desde então adoeci.
Tenho feito muitas perguntas
E desde então,
Descobri mais medos.

Descobri que o trauma fala em silêncio
Por vezes grita
Chora
Mas destrói tudo que é livre
Tudo que é real
E que pode ser verdadeiro.

Tenho morrido em minhas dúvidas
Estas me deixam insone
Devoram meus pensamentos
Atormentam o meu espírito
Já cansado e esgotado
E me consome.

Perguntas e perguntas cercam minha consciência
Maldição do pensar demais?
Ou razão do descontentamento?

Perguntas perseguem minha mente
Como névoas sobre o céu
Como predadores sobre o pântano
E como um passarinho sonhador,
Sou picado e engolido,
Por uma cascavel.

Perguntas insistem
E não desistem.
Em busca de alguma fresta?
Ou só tentando escurecer mais a escuridão?
Quem vive na dor tem pressa,
Quem sofre a perda não quer ter razão
Quer guerrear com a consciência.

Perguntas nunca se calam
Nunca se bastam
Porque a angústia jamais se esquece
As dores que os sujeitos lhe causaram
E a realidade jamais adormece a ferida
E expõem tão vividamente sua incurável dor precoce
Sempre presente
E transparente.

O trauma é a dor infinita da perda
É a morte que restou da morte
É a dor que nos consome
É a melancolia que escurece o sol
É o sol que brilha sem cor.

O trauma alimenta os fantasmas
E os fantasmas sobrevivem das feridas
Das causas esquecidas
Das razões escondidas
Dos reflexos negados a si mesmos
Da realidade tão entorpecida.

Perguntas me enlouquecem
Me adoece o corpo
Porque a consciência não suporta
Tanta dor e desgraça
Esmagando a epiderme,
Empoeirando o sangue
Entupindo os meus poros das sujeiras do mundo
Corroendo-me as veias já enfraquecidas
E sem um espírito crente.

Viver é um veneno
E da vida se colhe o antídoto
Mas toda tentativa não é o bastante
A vida não basta
Porque a morte é constante
E está sempre presente.

Perguntas sempre me vencem
Estão sempre caindo diante de mim
Em meus olhos pesados por lágrimas
Escorrendo nessa face pálida
Sempre à frente.

Perguntas são tiros na alma
Por isso a filosofia não é consolo nem salvação
É gozo no intelecto
Mas é danação na prisão do mundo.

Perguntas remexem o caos em trânsito
Remata o sujeito que pensa
E estrangula sua esperança.
A morte do pensamento é como a bailarina que dança
Conforme a música que lhe ensinaram a vida toda.
O pensador se enfurece e ele mesmo cria sua música
E sua dança.
A sua mínima liberdade é o seu prazer de resistir e sobreviver.

A melancolia o persegue pela sombra
Sempre disposta a derrubá-lo
Quer mais, sempre mais
Da existência que não dá conta de tudo
Mas que exige que algo se mova
Mesmo sem sucesso
Mesmo sem escolha.

Escuro é o lugar
Que adormecem os pensamentos dos pensadores
A vida nunca está pronta e a morte finita nunca está dada
Enquanto houver esperança na lucidez
Enquanto ele não morre em sua arrogância.

A vida é uma grande ilusão,
Já cantou o bom compositor
Dos desgraçados aos que se enaltecem.

Para se agarrar aqui hão de se alimentar alguma paixão
Alguma obsessão ou psicótica ambição
E assim todos vão caindo no delírio coletivo
E nessa incessante alucinação
De nos auto-aniquilarmos para a grande salvação.

A morte é a fonte da humildade
Dos que ainda resistem com a razão
Aos que insistem em lutar contra a estupidez
E ainda enxergam na lucidez,
Alguma saída para esse esvaziamento da ação.

Para o pensador o conhecimento é a sobrevivência
E a arte é fonte de sua resignação
De seu suicídio optativo em transpirar sua morte
Através da sua sublimação.

Inspiração para a vida ou para a morte
Ainda é a sua forma de permanecer nesta loucura
Sem se afundar com os demais neste imenso cemitério
De almas perturbadas e perdidas na contramão.

Viver é carregar uma grande pedra
E do penhasco ela sempre rola
Contra a sua direção
Para testar sua resiliência
Ou destruir qualquer frágil ilusão.

E de dor em dor
De desilusão em desilusão
Eu tento resistir em silêncio
Sem sucesso
E sem aprovação.

Todos estão fugindo de si mesmos
Desesperados e viciados em suas sensações
E de drogas em drogas não conseguimos extinguir a dor
Nem nos salvar da condição mortífera que a existência pregou.

Estamos severamente condenados à angústia
Com espinhos e sangue pela estrada
Sob acusações e julgamentos
Sendo réu de si mesmo
Sendo a consciência
O nosso maior algoz.

Recordar é morrer também
Relembrar pode não ser bom
Lembranças não são somente os sorrisos postos nos retratos
Há muita escuridão nos quartos
Embaixo da cama
Ou escondido dentro do porão.

São brigas, talheres voando em nossa direção
Como fios te alta tensão
Somos eletrocutados
Somos chocados e imobilizados pelo que vimos
E não optamos
Nem escolhemos ver
Nem muito menos,
Sentir.

Dores perdidas na memória
Só se alimentam de lembranças vivas
Que nos matam.

Uma hora elas se encontram
Quando não estão brincando no labirinto inconsciente
E se chocam
Nos deixando em choque
Imóveis quando assustados com o que vimos
Com o que sentimos,
Com o que somos?

Uma alma presa na infância
Uma dor constante
Um filme emocionante
Uma canção no piano
E pronto,
Catarse.

Os sonhos se apagam
As esperanças se esvaem
O chão cede ao medo
E nada parece real
Nada parece estar seguro.
O terror volta e nos controla
E caímos em desespero.

Feridas da estrada primária vem e voltam
Escurecem a nossa visão
E obscurece o nosso destino
Como águas turvas e violentas
Que escorrem como veneno lentamente na consciência
Sangrando o espírito amargamente
Quebrando qualquer resquício da sagrada inocência.

E essas águas não param de cair
Deságuam como rios de lágrimas inocentes
Entorpecendo a própria razão
Destruindo qualquer castelo erguido com emoção.

Porque os mortos são perseguidos
Por suas vidas interrompidas no passado
Por sentirem fome e sede pela saída
Dentro de casa
Dentro de si
Quem sabe alguma cura ou alguma luz pela fresta?

Eu só sei que quem tem dor,
Tem pressa.

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