Quando a noite cai
E a vida não me traz
O descanso que eu anseio e espero
Para precisamente enfim,
Encontrar o meu silêncio
E finalmente dormir em paz.

Eu me ajoelho e rezo
Como uma criança assustada em seu castelo de fantasmas
Esperando o seu anjo da guarda lhe salvar
Eu não estou com medo,
Mal me convenço.

Eu tento esquecer que sou eternamente ignorado
Por Deus e pelo Diabo
Por Buda e por Shiva.
Eu faço parte dos rejeitados
Dos não-enquadrados
Dos sem forma e sem consolo
Dos sem estrada para sentar e esperar.

Eu tento fechar os olhos
Já são meia noite e eu tenho que cedo levantar
Mas a angústia me sangra o peito
E não polpa-me os pensamentos da sensação de derrota
Eu quero bloquear os maus pressentimentos
Mas estou fraco
E sem força,
Ponho-me a nadar no mar de lembranças mortas.

As dores perdidas ganham sua volta ao meu âmago
Me entorpecendo ainda mais minha mente
Me envenenando contra mim mesmo
Eu só desejo que todo esse tormento acabe
Eu só quero deitar e esquecer do mundo
Que não me abandona um segundo
Querendo muito me devorar.

Eu tenho medo de enlouquecer
E se eu não encontrar uma saída?
Minha vida já tão vazia,
Se esvairá?

Meus neurotransmissores se chocam com a intensidade da dor
Eu gemo de dor e peço a Deus para parar
Mas só o silêncio do desespero vem derradeiramente me abraçar.

Feridas passadas bloqueiam a saída
Talvez eu deva ceder e me entregar à insanidade obscura?
E se no fim,
Eu conseguir encontrar alguma saída?
O meu lugar?

Constantemente rejeitado
Eu serei sempre reprovado.
Sempre errado por falar
Sempre inadequado por não associar
A língua maliciosa com a poesia,
O verso triste mas esperançoso
Com a bala ‘perdida’ dos criminosos do Estado
Ocupando corações ingênuos todos os dias.

Eu sento-me nesta rua solitária
E espero a esperança passar
Eu ouço uivos de lobos covardes
Asas voando num céu negro a desastrar nossos ingênuos sentimentos
Nossos sonhos puros
Nos congelando com o sagrado medo:
Pai da tradição
Padrinho do desejo escondido
Hades imperando o Caos
Mas por que todos estão sempre alegres e sorrindo?

Eu olho para o céu novamente e vejo uma sombra passar
Será minha tristeza indo embora?
Irei enfim, me libertar de todo este sofrimento?
Ou sangrarei até o fim dos tempos?

Eu posso acreditar que o brilho da lua irá me guiar?
Me preencher com sua luz e beleza
Inundar-me minha alma com canções harmoniosas a chorar?
E se ela estagnar, e me prender a dor de ser só na existência?
O que posso fazer para suportar?

Beethoven deixou suas melodias melancólicas para agradar
Os desgraçados, os desiludidos,
Os renegados ao amor,
Os que enxergam o suicídio do rebanho cego
Aos eternos traídos pela Verdade
Aos profanos, aos ímpios do caminho sujo e impuro,
Aos ingratos pelo o pão
Aos descrentes da ‘vida’.

Então eu deito-me ao chão
E espero a chuva cair
Eu sei que as gotas da verdadeira vida irão me tocar
Elas são reais
Não são promessas.
E eu me renderei a todos os meus pecados contra a natureza
Contra a verdadeira vida
Contra o verdadeiro e único caminho
Contra o pão de cada dia feito de ar, trigo e fogo.
A vida só é manifestação de elementos
Administrados por uma linguagem mortífera.

Eu me sufoco em lágrimas
Me cego por estas secreções que insistem em cair
E me entrego às lembranças de dores passadas
Vinganças estúpidas,
Traumas incuráveis e medos soterrados em minha psique
Desde o meu primeiro suspirar até cá.

Mas eu espero o tempo passar
O tempo é um deus que se não cura
Ajuda-nos a atravessar
E eu vou encontrar algum lugar
Algum caminho além da dor
Eu vou quem sabe um dia,
Parar de sangrar?

Eu espero que o tempo leve toda essa tristeza
E que carregue todas as malezas
Que a vida não impediu
Que o mundo insistiu que eu pagasse
Mesmo quando nada tinha para dar.

E eu deliro em meu desejo de um dia voltar a sonhar
Voltar a acreditar num mundo possível sem armas, ódio e choro
Quem sabe minha alma se esvazie de toda essa nuvem cinzenta?
E livre da prisão da dor,
Poderei correr sem medo de cair outra vez e me machucar?

Mas a consciência me diz que nada irá mudar
E sinto o meu espírito se empetrificar
Não há chance
Não há algum lugar.
Estamos condenados a suportar
Ou dar adeus sem se importar.

E eu fecho os olhos
Não de sono
Mas de cansaço,
Sobretudo: cansaço.

Viver cansa.
Existir dói demais.
E o que se ganha em suportar?
Admiração, prêmios humanitários?
Esperança?

Eu não terei mais nenhum desencanto
As pessoas já me levaram crenças e me feriram os bons afetos
Eu só não quero mais enxergar o absurdo do mundo
O delírio do consumo em nos auto-aniquilar.

Então eu descubro que nunca mais conseguirei dormir
Eu já não sonho mesmo desde a primeira profunda queda
E de minha melancolia, eu tenho que me salvar.

Toda a Terra está totalmente imergida numa sedutora escuridão
Todos estão mortos e congelados
Surdos pela agitação
Cegos sem razão
Eles vão dando continuidade a isso tudo
Sem parar para respirar
Numa paranóia coletiva sem direção.

Então eu não quero mais esperar
Eu só quero ver a luz passar
O amanhã chega trazendo obrigações
e no trabalho, todos irão perguntar:
O que te aconteceu?
Está abatido, com cara de cansado.

E eu não vou resistir
E lhes direi que o cansaço vem de tentar resistir
E viva a tristeza!
Pois ela é a única que ainda nos coloca em nosso devido lugar.

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