Não lembro quando despertei.
Lembro de ter largado a pesada mochila, cheia de pensamentos, atitudes e vícios que me enganavam, me envenenavam e entorpeciam.
Tudo começa quase sempre sem propósito pra ser. Começou assim: me derrubando, me jogando ao chão enlameado, cheio de espíritos perturbados. Eu era muito novo para entender a vicissitudes da vida. Então, ela me deixou cair a esmo. Morri de quase tudo. E quase todos me mataram. E quase todos estavam gostando de me ver cair e morrer. Quando dei por mim, percebi que queria saber o que estava acontecendo comigo e com o mundo externo, o que não deixava de ser meu também.

Eu estava extremamente perdido. Tanto em minha mente quanto em minha melancolia. A dor de existir me esmagava e eu só queria entender, e me esconder.
Com o passar do tempo eu percebi que tudo sempre foi assim. Nunca foi e nunca será do meu jeito.  A consciência romântica abria espaço para uma consciência sombria. Pairava em mim, sobretudo: náusea.
Não queria me misturar. Não queria fazer parte do grande circo da cidade. Não queria encenar com os títeres a peça encenada desde sempre. Me isolei, sofri por não ser como eles mas me recuperei. Entendi que a vida é percurso. Um devir, se assim a gente quiser.

Compreendi que o meu olhar sobre o mundo, era somente uma representação pessoal, portanto: melancólica. Percebi que o mundo ainda tinha algo bom a me oferecer, a me satisfazer, a me ensinar e eu, muito a aprender. Percebi que a minha miséria existencial não poderia me condenar nem julgar demais o mundo que eu represento para mim. E que minha visão pode estar um pouco torta e triste. E sensações, sentimentos confundem os nossos pensamentos, nossos olhos, nossos sonhos. Entendi que apesar das várias impossibilidades, eu poderia cursar um caminho. Sem sonhar muito nem abraçar por demais a dor e o sofrimento.

Com o passar do tempo a gente percebe que pouco pode, mas não precisamos nos paralisar, adoecer por resignação e pessimismo. Podemos criar condições favoráveis aos nossos desejos, criando assim novas possibilidades e quem sabe, um outro destino?
Comecei muito perdido. Flertei com a insanidade e com o suicídio. Me droguei de álcool e lítio. Fiz sexo sem cuidado, só para morrer. Muitos percorrem e estão percorrendo esta estrada autodestrutiva. Muitos estão se jogando do andar de cima. A consciência não me poupou. Sofro como todos esses. Mas aceitei as regras do jogo. Sem me anular, sem esquecer quem eu sou e para quê existo. Existo para me satisfazer, pois a pulsão da vida é o desejo.

Melancólico, já não desejo muito, mas o que quero,  eu quero muito e já não lamento o tropeço, nem afundo demais em minhas entranhas obscuras. Não lembro também quando comecei a encontrar a luz, que chamo aqui de razão. Razão para viver e tentar qualquer coisa por aqui se eu achar que vai valer algo. Quando eu me cansar, eu parto. Sem demasiadas lamentações nem tantos ressentimentos. Quero só a liberdade de ser o que eu quero ser, para fazer o que eu quero fazer e pronto. E para isso eu finjo, enceno, participo do grande circo cheio de palhaços querendo o meu extermínio. Me vendendo para obter o que desejo, o que mais almejo. Já não importa de onde vem o dinheiro.

Aprendi a fazer muitas concessões. Disciplina primeiro, para somente depois ter a liberdade de  dizer o que digo. Palavra em movimento, já não sou só um verme no chiqueiro coletivo: eu sou a sombra dos que aqui se enganam se matando. Sou a presença incômoda, a voz que diz o que não devia ser dito. Eu já não sou mais humano.

de volta pra casa nas aguas

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