O celular toca
Me convidando a encenar
Eu não existo desse jeito
Eu não resisto.

A inexistência da minha voz
Ou o apagamento da minha essência
Me esvazia por completo
A vida se despede melancolicamente
A morte me dissolve por dentro
Num grande golpe violento
Me levando ao túmulo injustamente.

Da vida eu esperei demais
Sempre atrás, chegando quase perto
Eu não fui redimido por ter nascido
A vida só tem valor nas indústrias
E nos mercados das igrejas
A existência pede um pouco de silêncio
Em excesso de trabalho e festas
A morte pede clemência.

São muitos corpos jogados
São espíritos por demais perturbados
Nem os anjos do vale da morte suportam
Tamanha tristeza e negligência.

Crianças logo cedo aprendem
Que viver é excluir
E num contra-ataque cristão
Todos nós damos continuidade
A guerra santa da maldade
A barbárie da gestão da exclusão.

Dentro dos ônibus
Vejo semblantes apáticos
Conversas com maledicência
Eu esperava mais de ti, ó vida
Esperava mais decência
Desta eterna decadência
Que somos e somamos
Dia após dia
Contra a liberdade de cada um
Contra tudo que valorize a experiência
E sentados num escritório
Ou limpando as ruas e asfaltos
Vamos aterrando aquilo que chamamos de amor
Que antes acreditávamos ser o caminho para a excelência.

E pregando espinhos nas testas alheias
Dissimulando nosso ódio com palavras certas
Vamos erguendo cruzes e vozes
Dos anticristos regidos pelo sistema.

E assim vamos nos perdendo
Entre ódio e ressentimento
Valorizando os corpos estendidos no chão
Fingindo muito bem que nada temos com isso
Enquanto o sangue ainda vivo
Escorre aquecidamente de nossas mãos.

cadeia41746

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