Chamam a maior parte do tempo, de morte, esta que pode e vai me levar de volta a qualquer momento ao pó.
Meus pais estão me visitando diariamente. Me sinto mais vivo agora do que antes de descobrir há seis meses que estava com leucemia.

Lá em casa, a gente mal se via. Mamãe estava sempre ocupada com os problemas do departamento que ela gerenciava. Papai, por sua vez, não era diferente. Dizia sempre, que para me dar uma vida boa, precisava se sacrificar.
Viviam falando ao celular e quase nunca me ouviam. Madalena, a empregada, sempre sentia pena de mim e não me deixava ficar triste. Embora ela tenha tentado evitar, eu me sentia invisível aos olhos deles.

Lembro de papai e mamãe indo na escola pra conversar sobre as mensalidades no início do ano. E no final deste, iam lá só para me ver pegar o diploma, sempre exigindo que a professora não atrasasse minha entrada.

Nunca foram a nenhuma reunião de pais. Acho que pior do que ser órfão é ter um pai e uma mãe que te ignoram, que não te vê, que não sabem que você existe, que sente, que chora. Se ao menos eu fosse órfão, poderia fingir que os meus pais me abandonaram por não ter condições de me criar. Mas eles têm condições!

E nesses seis meses, após a descoberta da doença, que diagnosticamente só se agrava, eles desde então, estão loucos. “Como pode meu filho, tão bonito, tão saudável, estar tão doente?”

Mas que diferença esse desespero faz para mim?
Eu estava morto desde que nasci. Não me lembro de passear nos parques municipais com a minha mãe, de jogar boliche aos domingos com o meu pai.
A gente só se reunia nos finais de ano, onde tudo que era dito não fazia nenhum sentido. Não me satisfazia as palavras bonitas, roupas caras, abraços longos nos dias 24 e 25 de Dezembro enquanto no decorrer do ano eu não sentia nada.

Sento-me aqui e escrevo isso para aliviar a minha angústia, esta sim, é a minha morte, definitivamente.Sei que não conseguirei o transplante e isso não faz diferença alguma na consciência. Afinal, estava morto há 17 anos mas ninguém viu. Ninguém sentiu.
Mas eu senti.

 

quarto sóescrevendo

 

Anúncios