Às vezes, quando estamos presos no caos de nós mesmos, tudo que desejamos é fugir dele. Nos drogamos com todo tipo e sorte de drogas. Bebemos e dirigimos. Fazemos terapia e meditamos. Mas tudo para fugir, para não enfrentarmos a sensação de impotência que nos devora tão atrozmente. Ninguém quer enfrentar o oceano de dor, de desilusões e revoltas. Todos querem uma mágica: não sofrer.

Evitar o sofrimento é sofrer antecipadamente. É sofrer mais, e inevitavelmente sofrer com mais vazios e falta de respostas. Às vezes precisamos sentar em meio à calçada dos caos e esperar. Esperar um novo ciclo quem sabe?
Da dor, ninguém nunca conseguiu fugir, nem ao menos evitá-la. Da dor, o que sabemos é que muitos sentiram, muitos desistiram por causa dela, muitos não suportaram e até enlouqueceram.
Sente-se e enxergue o caos. Não o ignore, não o despreze. Não o veja como um inimigo. Mas como uma etapa, ou mais um degrau.

A vida pode ser uma escada rolante que sobe para nos elevarmos. Ou pode ser uma escada rolante que desce contra os nossos sonhos, nossos desejos. Nos destruindo, nos matando, nos enterrando vivos.

Se pensarmos que tudo passa e tudo volta, podemos pensar que o caos passa e que depois volta. Como o nosso corpo que não se banha no mesmo rio pelas mesmas águas, o caos pode não te derrotar tanto quanto te derrotou nas outras vezes. Ficamos mais fortes, mais resistentes. E quem sabe, podemos enxergar que a vida precisa de aceitação. Não de conformismo nem acomodação, mas aceitar o paradoxo que ela é. A ambiguidade absoluta de existir.

Se pararmos para olharmos em nossa volta, há muitos se matando, desistindo de si. E de diversas formas. Seja em festas raves, seja no álcool, seja no cigarro, seja no vício do café, no vício por doces, seja no tráfico, seja na política institucional, seja no trânsito, seja dentro de casa.
Todos têm horror à dor, mas poucos a suportam com dignidade, com postura de um guerreiro, de um resistente que ainda não quis se entregar e por isso merece viver pelo o seu valor. Pelo o que pode fazer neste mundo já destruído e deliberadamente decadente.

Viver não vem com bula, nem manual. Da dor o que podemos fazer é as pazes. E com o sofrimento, o mesmo. Não digo abraçar a dor nem romantizar o sofrimento, mas se permitir sofrer, como todo ser humano que sofre, mesmo tentando muito esconder.
Evitar a dor, o sofrimento é evitar a vida. A vida que nos mata, portanto a vida que também é morte incessante.

A morte como a vida, assombra. Mas podemos fazer dela uma amiga. Uma amiga que nos afronta e nos desafia. Nos faz correr atrás do que queremos pois ela nos dá a consciência que tudo pode ser efêmero. Tudo pode ser líquido.
E para não evaporarmos na dissolução de nós mesmos, nós podemos enxergar que com o passar do tempo, a gente perde mais e ganha mais. Seja força para sobreviver, seja maturidade, seja força espiritual, seja força para ser você mesmo sem se importar com o que os outros vão dizer.

Viver não é fácil. Mas pode se tornar mais insuportável quando não aceitamos o peso de suas pedras. Quando não aceitamos sobre’viver.
Deem as mãos ao lado injusto, triste, revoltante dessa arte de resistir. E faça de sua vida uma obra de arte. Que seja um quadro vivo de cores, de dores e pesares, mas intensas e cheias de alegria, de amor e bondade também.

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