Sempre nos bastidores
Aprendeu a se esconder.
Na cozinha ou na lavanderia
Ela é o outro
Não é ninguém
Não é um ser.

Quando se torna ser
É a bruxa
A histérica
A prostituta
A pálida impossível
A loira burra
A negra bunduda.

Ela é desprezível
E nunca será como os homens
Se veste para provocar
Numa cultura do ódio
Do estupro.
Ela não é vulgar?

Prendada,
Sabe cozinhar, lavar, passar
E obedecer.

Inteligente,
Sabe se submeter
E perante a humilhação
Sabe como deve sofrer.

Esperta,
Sabe se envaidecer
E atrair o melhor homem
Aquele que lhe tirá a inocência
A ingenuidade
E mostrará o pano vermelho
Para que todos possam ver:
Ela é honesta!

Ela acredita que é o certo a fazer
Para a sua própria decadência
Para a subsistência de seu ser.

Na Indústria dos Corpos
Ela é a Grande Mãe do Sistema
Sem ela não temos mão-de-obra
Sacrificando o seu corpo,
Guardamos o seu ventre.

Ela não sabe
Mas carrega um monstro
Durante noves meses.

Na alienação, não se vê
Não se questiona
Nem sabe os porquê’s.

Foi ensinada a servir
A se doar ao máximo
A sofrer pela família
A se resignar pela amada igreja
Foi educada para resistir calada
Para menos sofrer.

Sempre reclusa
Queimada,
Enforcada
Estuprada
Escravizada
E decapitada,
Se acostumou.

Hoje ainda vive a prostituir sua alma
E o seu sagrado corpo
Que não é dela
É da Igreja
E do sistema.

Ela precisa obedecer
E produzir mais robôs
Para a manutenção e dominação
De todos os corpos fabricados
Para enlouquecer.

Numa genealogia excludente
Ela dá a luz ao anti-humano
E fomenta as trevas do Anticristo
Onde o seu próprio filho
Se torna tua serpente.

Mercadoria sem valor
Merecedora do desprezo
Ela é o rosto sagrado estampado
Nos quadros da Igreja
Que queimou o seu corpo no passado.

Perfeita e amável ela é
Se pálida e congelada
Envenenada pela maçã de sua ignorância
A espera do grande beijo do patriarca
Que virá lhe despertar de seu sono profundo
Para se tornar refém de sua cama
E de seus sádicos prazeres.

Mãe Sagrada do Capitalismo Religioso,
Sem ela não podemos viver.
Padroeira dos Esquecidos
Sua benção é fazer sofrer
Junto de todos seres estéreis
Num sistema reprodutor
De mortos vivos.

Louca será
Aquela que desafiar a insanidade vigente
Aquela que decide fazer o que quer
E o que bem entender.

Para ela o castigo:
A cultura do estupro.

Mulher,
Tu és um mero corpo
Para um sistema impiedoso
Que só te sustenta
Para dar lógica a reprodução
Da produção da lógica de exclusão.

O mundo não pode ficar inoperante
O sistema não pode dar pane
Mulher, seja inteligente:
Feche o seu ventre!

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