Perdido há tantos ventos

Sob as sombras de teus pensamentos

Novamente ele recai

E sobre si mesmo

Afunda-se em esquecimento.

 

Implora pela superfície

Por ar, por vida livre

Mas as algemas ao seu redor

Sufocam-no

Asfixiando o seu mundo

Já destruído há tempos.

 

Caindo eternamente em seu desespero

Ele sonha em encontrar a saída

De toda essa tortura e agonia

Implantada para a sua existência ser banida.

 

E cerceado em seu ser

Torna-se um objeto suicida

Por ser estéril

Em um sistema fecundo

De mortes ambulantes vivas.

 

Quando sonhou,

Encontrou o pesadelo

Quando amou,

Encontrou a dor,

A rejeição, o frio

E o abandono.

 

Ainda criança,

Conheceu a morte

Diante de tantas mortes que viu

Acontecendo em sua frente

Caindo em seus olhos

Sem parar.

 

À noite não conseguia sonhar

Os fantasmas de suas dores

O fazia delirar em meio ao mar de sua mente

Profundo e escuro a nadar inconscientemente

Entre os seus restos deixados

Para sempre,

Para trás.

 

Medos que o atormentavam

Sentimentos que perturbavam

Gritando traumas em silêncio

Sem jamais cessar.

 

Em sua espinha dorsal

Espíritos lhe causavam calafrios

E sussurravam palavras de terror

Em seus ouvidos.

 

Suas lembranças o perseguem

Fazendo a paisagem mudar

O azul do céu torna-se vermelho

As nuvens brancas acinzentam-se

E derramam-se em lágrimas de eterna melancolia

Escurecendo qualquer lugar.

 

Sonhos sepultados e enterrados

Em sua memória latejam

Anseiam por vitória e alegria

E um pouco de beleza.

 

O seu espírito amarrado

As maldades diárias

Prega-se na cruz de castigo

Por enxergar o mundo

Com os olhos de um ingênuo menino.

 

Seus medos os repreende

Quando tenta acreditar na felicidade

No amor e na vida.

Mas sente que vai se machucar

Novamente.

 

O mundo é aterrorizador

Assustado em seu berço

Ele grita de susto e terror

Onde o seu mundo cai

Sobre seu choro não ouvido.

 

Sempre no cativeiro de seu mundo

Ele se paralisa em seus bloqueios

Ele se sente incapaz

O fracasso lhe parece iminente

A infelicidade é intermitente.

 

Sempre afogado em suas feridas

Que jamais se cicatrizam

Ele ouve o choro de uma criança

No fundo do seu quarto,

Mas ela não existe mais.

Ela foi enterrada viva

E silenciada,

Não fala mais.

 

Ameaçada por seus pais

Fatalmente acreditou

Que o mundo é um mar de espinhos

Que a vida é um eterno ciclo

De respirar e morrer

Até envelhecer.

 

De madrugada,

Em seu jardim vê

As gotas de orvalho escorregando

Nas belas folhas verdes

Que choram juntamente

De sua essência frágil

De sua alma inocente.

 

O céu azul irá chegar

Não te preocupes pobre criança!

Quando você morrer,

Tudo vai ficar bem!

Pra quê se esconder?

Acredite na ilusória esperança

E viva morrendo até se dissolver.

 

E num silêncio entorpecente

A criança no quarto sente

Que a vida é um eterno

Vir-a-ser um perdedor

E de descontentamento irá se manter

Até o fim dos tempos.

 

Em seu céu púrpuro

Há anjos guerreando

Contra os seus demônios

Muitos caem em derrota

A maldade é epidêmica

E todos a praticam com rigor

Como quem é o capataz

De seu eterno senhor.

 

A criança não cresce

E vive sob terror, drama

Um suspense incestuoso

Uma máquina que o tatua

Como o ser mais infeliz

Desprovido de voz

E de valor.

 

Em redenção total

Faz duas linhas verticais

E com os pulsos sangrando suplica

Com voz trêmula e chorosa:

Deus, me leve para o alto,

Me salve de mim por favor!

 

Deus ouve sua prece

Comovido através de sua angústia existencial

De orgulho se entristece

Olha para o aviltado e reflete:

O mundo é um eterno espetáculo

Onde a vida é encenada religiosamente

E a morte é real e constante

E calmamente matam todos

Lentamente…

 

Refugiado em seu abismo particular

Adormece sob inertes devaneios

Enquanto sua pele se alimenta

Da hostilidade

Da indiferença

Do frio da cidade.

 

Mas ele só mais um corpo

Carimbado e sentenciado

No mundo dos excluídos

Uma voz sem som

Um rosto sem identidade.

 

E sua pele congela

Com a madrugada que cai

E ao cobrir-se do relento

Sua dor se acalma

Em sua alma tantas vezes perfurada

Em um espírito afogado pela profundeza

De seu eterno cais.

 

Nessa doce e cruel solidão

Se vê feliz e amado

Pela companheira cruel e fiel escuridão.

 

Injeta-se de fantasia

E num sono fúnebre

Cai sobre seu próprio corpo

Mas ninguém liga não.

 

Ele é só mais um mendigo

Insistindo em pagar em vida

Esse crime que não cometeu.

 

Mas alguém tem que cair

Para uma voz se erguer

E viver da desgraça humana

E se envaidecer.

 

Seu coração para de bater

Como quem está cansado

De ter que suportar mais um dia

Nesse sagrado caos que implantamos

De maneira servil e inquestionável.

 

Instaurando o mal pela cor

Classe e orientação sexual

Vamos nos mastigando

Até arrancarmos os últimos pedaços

De nós mesmos

Delimitando todos os espaços.

 

E brindando com o sangue da vítima

Gargalharemos no status quo

Ao ouvirmos piadas das ovelhas sacrificadas

Em nome de um deus que segrega

Em nome do Deus Maior

O Capital.

 

Deus lá de cima chora

E percebe em sua infinita tristeza

Que o bem por aqui é uma farsa

E a humanidade afasta.

 

E deitado como se dormisse

Ele se agacha e sonha

Vai acordar sobre as nuvens

Que sempre sonhou na infância

Num céu azul que nunca viu

E nem tocou.

 

E num último gole de esperança

Parte para um mundo sem dor

Onde os perdidos se encontram

Onde há um lar para os excluídos.

 

Dançará e cantará

Alegres como nunca antes

Em suas essências vibrantes

A alegria tão ausente

Nessa tristeza constante.

 

E num estado de felicidade inebriante

Jamais se lembrarão

Da solidão que é

De ter que viver entre tantos.

 

De olhar para tantos

E não encontrar amor

De passar por tantos

E nunca ter sentido algum calor.

 

No lar dos eternos abandonados

Ele se sentirá aconchegado

No mundo de paz de todos os espíritos atormentados

De todos os corpos aviltados.

 

E como num eterno sonho

E uma gloriosa e doce fantasia

Sentirá eternamente a alegria

Lhe invadir a essência todos os dias

Convidando-o  para levantar de sua incurável melancolia.

 

E jamais se lembrará de tudo que viveu, sofreu

E morreu aqui

Enquanto mendigava o ar, algum espaço

Enquanto se arrastava e rastejava

Suplicando por alguma vida.

 

 

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