Percorreu uma vida inteira

Através da morte.

 

Sempre empurrado para trás

Nunca encontrou uma porta

Uma fuga qualquer

Ou um fragmento de saída.

 

E ainda tenta encontrar

Em si mesmo

A cura de todo esse tormento

Esse caos interno

Que implode por dentro.

 

Nadando no fundo de suas lembranças

Pesadas e obscuras

Mergulha sempre na profundidade

Dessas águas escuras

Está sempre caindo para o fundo

Sempre procurando por seus pedaços

Divididos em todos os espaços.

 

Criatura terrestre

Sempre está preso nas águas turbulentas

De sua mente.

 

Cansa-se de tentar,

Cansa-se de acreditar.

Então saboreia a sua derrota

O seu intermitente fracasso

A sua eterna morte lenta.

 

Em seus cais

Espera ansiosamente

Por um salva-vidas

Que o salve dele mesmo

De sua escuridão precoce

De seus infinitos pesadelos.

 

No inverno

A neve cai em descontentamento

No outono

As folhas caem de fraqueza

Por tanto suportar

Essa loucura gloriosa

Que nos toma todo o tempo.

 

Mas ele quer se libertar

Da profundidade deste oceano

Que ele mergulha e se sufoca

Asfixia-se em suas eternas lembranças

Tão reais e tão remotas.

 

Ele quer se ver livre do fundo

Então nada sem saber

Para aonde vai

E sem obedecer.

 

Em busca de respostas

Encontrou milhares de perguntas

Em busca de silêncio

Encontrou ecos de seu grito

Em profundo desespero.

 

Cansado de ser levado

Pela força bruta do vento

Ele foi levado para o seu tornado

De pensamentos suicidas

A cada brisa sombria

Do mar que o aquecia.

 

Sempre abaixo de um céu negro

Corvos o rodeavam em sua solidão

Enquanto os ratos da cidade

Riam constantemente

De sua ingênua paixão.

 

Sob nuvens nubladas

Carregadas de tristeza e torpor

Ele era dono da melancolia do mundo

Um moribundo em seu mundo interior.

 

O sol nunca brilhara em sua alma

Nem mandava notícias por uma fresta

O corpo entorpecido de dor funesta

Carregava uma angústia

Como quem carrega a pedra de Sísifo

Sempre intermitente

Esquartejando lentamente sua alma

O levando a insanidade mais obscura

Sem pressa.

 

Rodeando suas sombras em sua mente

Encontrou-se num canto escuro

Amedrontado por tudo e todos

Viver é dolorosamente estranho

O mundo é um verdadeiro absurdo.

 

Um vazio tanático preenchia sua visão

Pessoas mortas por todos os lados

Se dissipando em desunião

Correndo para preencher

Suas vidas de plástico.

 

Sempre empurrado para o mundo inferior

Ele provou do mais amargo sabor

De existir, de ser pessoa

E quis diversas vezes,

Desistir.

 

Filho de Nix e de Caos

A escuridão era o seu lugar mais seguro

O grito dos mortos o enlouquecia

E por muitas vezes,

Hades o prendia.

 

E rasgava suas cicatrizes

Sempre expostas ao mundo selvagem

Marcas que nunca adormeciam

Fantasmas que nunca se calam.

 

Ele é um corpo sem mãe

Sem pai, sem irmãos.

Filho do verdadeiro caos desenfreado

O amor não lhe foi apresentado

Até hoje

Desde a primeira rejeição.

 

Destino embaçado na neblina

Perdido em todas as sortes das esquinas

Ele é filho do Estado

Do descaso do Capital de Cristo

E dos seus eternos soldados.

 

Um presságio entre o respirar

E o asfixiar-se

Entre a fresta e escuridão

Ele é a voz dos mortos

Durante o dia assombroso

Que se anuncia

E o tortura dia por dia.

 

O seu lugar é na penumbra

Cantando canções de dores passadas

Com ritmo fracassado e triste

A melodia de perdas gloriosas

Numa voz suave e melancólica.

 

Ele é a dor ambulante

Se drogando de viver

Porque existir é sofrer

E não há cura por aqui

Só resistência por heroísmo

Ou por uma insana insistência.

 

Ele é um corpo sem alma

Uma dor sem refúgio

Sem um consolo

Sem abrigo.

 

Num lugar eternamente frio

Flocos de neve congelam

Seu pobre espírito adormecido

Há tanto tempo esquecido

Entorpecendo sua razão

Instaurando permanentemente

A doce loucura

E o sagrado delírio

Numa infinita agonia

E perpétua tortura.

 

Ele ainda é assombrado por seus medos

Alimentados por traumas de infância

Onde o chão era movediço

Fazendo-o cair o tempo inteiro.

 

A chuva que lhe cai sobre a mente

É intensa e fiel

Suas nuvens nubladas

Sobrevivem de suas lembranças

E controlam sua sanidade

Através de sua desesperança.

 

Castigado por vir ao mundo,

Ele é uma previsão sem futuro

Uma eterna dívida da humanidade

Enquanto insistir em encontrar uma saída

Nessa eterna caminhada em busca de vida.

 

 

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