Não convivemos
Dividimos um espaço
Que nem queremos.

O outro eu não enxergo
Tampouco com ele me entendo
Mas o que ele faz na cama
Me diz total respeito.

Atravessamos a rua
Como um rebanho obediente
Sempre com pressa
Sempre cegos.

Não sei quem está ao meu lado
E dele desconfio
A minha sombra me persegue
Como se fosse minha
E me tortura.

Furiosos e velozes
Seguimos adiante
Sempre adiando a pergunta
Que se autogerada
Nos destrói e nos expulsa
Dessas feridas expostas.

Não sabemos o que vemos
Se é certo ou verdadeiro
Tanto faz.

Tudo tem o seu preço
E eu pago pela minha desgraça
A ninguém devo satisfação
Nem o meu caráter antiético.

E nessa solidão coletiva
Abrigam-se dores, vidas
E desesperos.

Há quem se queixa do abismo
E abismados vamos vivendo
Como se o grande monstro
Fosse mero fruto do injusto acaso.

E nessa eterna ilusão de nós mesmos
Cultivamos o ódio, o rancor
E o ressentimento.

E de angústia e angústia
Vamos padecendo nesses padrões
Que não nos mantém mais como cidadãos
E sim como robôs vivendo sem direção
E sem direitos.

Protótipos cheios de defeitos
Nos dividimos em imagens e publicidades
Sempre cansados
Sempre covardes.

Sempre se auto-fotografando
Cheios de vergonha do que se reflete
Diante de nós em frente aos espelhos.
 

imagespppppppppAmy gritando no espelho

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