Eu pressinto a dor da nuvem cinzenta chegar

E pesar sobre minha consciência

Me separando de todos os mortos vivos

Trazendo mais uma tempestade para a minha existência.

 

Em vão,

Tento calar as vozes de todos estes demônios

Gritando em meu coração que sangra

Pulsando em minhas mãos

Cheias de marcas de rejeição.

 

Minhas lágrimas de medo

Caem formando uma canção

Junta ao vento.

E eu já não sei o que é real

E o que é imaginação.

 

Sentimentos que me esmagam

Me engolem lentamente

Quebrando-me os ossos

Calando minha voz

Com o seu veneno

Diariamente.

 

Todos os malditos estão agora comigo

Padecendo

Clamando por socorro e compaixão

Mas ninguém quer ouvir

Ninguém quer trocar de canal

Todos estão sofrendo

E ninguém quer saber do sofrimento alheio

Que já se tornou tão banal.

 

É o mal vencendo junto do caos.

É o mal como somos.

 

E amaldiçoados somos

Pela maldade que é o nosso instinto de vida

Pela maldade socialmente adquirida

E pela maldade prazerosa e perversa

Estampada cotidianamente nos jornais

Ou pelas mentiras jogadas nas revistas.

 

A vida não me deu uma razão para viver

A existência me mostrou que é triste existir

A morte não me deu motivo para esquecer

O que na luz do dia

Luto constantemente para não perceber.

 

Sonhos desfazendo-se em gritaria e tiroteio

Imobilizando minha mente

Esperanças sendo jogadas em asfalto sem coração

Inocências sendo manchadas por sangue vivo

De gente que vive a morrer no suor do Nordeste

Sem direito a alimentação.

 

O grito dos excluídos jamais serão ouvidos

Eu suporto essa morte me invadindo os pensamentos

Consumindo-me a alma já triste e fraca

Sem forças para se reerguer do chão.

 

E na morte eu encontro a minha salvação

Enquanto eu tento calar as vozes obsessivas

De todos os meus fantasmas de plantão

Assombrando o meu já adoecido espírito

Que há muito tempo dorme em algum lugar frio

Dando espaço para a minha sagrada solidão.

 

Enquanto eu sentir necessidade de dar o meu testemunho

Da insanidade que é tudo isso que vejo e sinto

Eu encontrarei o meu lugar no mundo

E me reencontrarei com a minha paz

Já atormentada e ameaçada pelos que me odeiam.

 

Enquanto eu encontrar forças

Em meio a nossa autodestruição

Eu seguirei delirando em meu caos interno infinito

Onde os sonhos são vistos e ouvidos

E levados a tiros por um camburão.

 

Enquanto eu sustentar o meu último suspiro

Eu seguirei na luz da minha escuridão

Vagando por um tempo bom

Onde os bons sentimentos são a nossa solução.

 

Enquanto nada disso mudar

Eu nadarei mesmo se fraquejar

Contra este redemoinho que quer me devorar

E lá no fundo eu não irei gritar de medo

E nem rezarei por salvação

Mas levarei a dor de acreditar

Que tudo que é bom poderia nos salvar.

 

Enquanto a ventania me arrastar para o grande furacão

Eu estarei separado da vida que aqui é destinada a poucos

Enquanto milhares morrem sem ter o que comer

Onde as crianças vão para as escolas

Sem sentir o cheiro do pão.

 

E nessa eterna prisão e castigo

Eu canto a canção dos excluídos

Cheio de amor a vida e a ilusão

Enquanto somos separados por abismo

De classes e grades

Por um Estado que não é Nação.

 

Devotos de cadáveres de Cristo

Eu sou o alvo e insisto

Em fazer da minha dor um grito

Enquanto o pensamento vazio coletivo me sufoca

Neste Grande Teatro da Morte que é o nosso tempo

Enquanto a vida segue sendo este Grande Circo de Horror e Revolta.

 

 

Diário De Um Detento

Racionais Mc’s
“São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8h da manhã”

Ratatatá, mais um metrô vai passar
Com gente de bem, apressada, católica
Lendo jornal, satisfeita, hipócrita
Com raiva por dentro, a caminho do Centro
Olhando pra cá, curiosos, é lógico
Não, não é não, não é o zoológico
Minha vida não tem tanto valor
Quanto seu celular, seu computador

Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo
Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!
O ser humano é descartável no Brasil
Como modess usado ou bombril
Cadeia? Claro que o sistema não quis
Esconde o que a novela não diz

“Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
Dia 3 de outubro, diário de um detento.”

 

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