Ando como quem carrega outros tantos

Ando como quem tropeça em seu próprio pranto

Em suas milhares de pegadas na areia

De cansaço

De esperar o tão sonhado

O inesperado.

 

Ando com os pesos de várias cabeças

Grudadas num só corpo

Como a Medusa

E assombrando vem todas as serpentes

Devorar meu sono

Minha alma inquieta

Meus sonhos.

 

Ando com o peso das várias consciências

Com o peso das angústias de cada uma delas

Ando como quem se perde em si mesmo

Entre tantas verdades incertas.

 

Em minha mente fraca de tanto lutar por sanidade

Por tanto insistir em respirar

Não cabem todos os fatos

Nem todas as mentiras divulgadas

Nem todos os corpos mutilados

Pela Igreja e pelo Estado.

 

Em meu corpo arrastado

Sinto todo o fel do sangue derramado

Diariamente como espetáculo

Da nossa perversidade sensacionalista

Disfarçada de justiça

De uma sociedade escravocrata

Maquiada com o pó dos corpos das mulheres queimadas

Dos negros diariamente dizimados

Dos índios aniquilados

Dos homossexuais odiados.

 

Somos todos sagrados

Homo sacer de um cristianismo

Que torna a vida insacrificável

Mas matável aos olhos de todos os moralistas.

 

E o meu corpo se torna tão pesado

Em meus pensamentos perdidos sem saída

Sem luz nesse breu

Presos neste eterno caos

Que somos nós

Em nome de Deus.

 

A arte vem como uma única possibilidade

A única oportunidade

De criar uma razão para tudo isso

E de repente tornar “bonito” e bem-feito

Aquilo que é repugnante

E mais horrível nessa espécie mal sucedida

Cheia de erros de fábrica

Como brinquedos perfeitos pelo sistema.

 

E as areias que me chegam aos olhos me cegam

De tanto caminhar em busca de paz

E de cair num chão movediço

Que é o nosso cotidiano líquido

Onde mais um dia que nasce é uma esperança que vai.

 

Onde mais um dia de sol

É mais uma chama que arde

Não de amor

Mas de apatia e indiferença

Diante de tanta desigualdade.

 

E no fundo do chão

Eu encontro paz

Silêncio e escuridão

Onde eu pensei que encontraria agonia e tortura

Numa crença alimentada por medos tão desumanos

Nos tornando todos uns serviçais espirituais

De um deus tirano.

 

E assim me esvazio

De tudo e de todos

E todo o peso se vai

Como a esperança que voou para longe

Como o sonho congelado no cais.

 

E eu caio sem dizer adeus

Agradecido por enfim descansar

De todo esse terror compartilhado

Como um roteiro de um filme sem fim

Sem chance para todo esse sofrimento.

 

E diante do meu reflexo na escuridão eu aceno

E reencontro comigo

Como quem não vejo há muito tempo.

 

A vida é só o início do nosso iminente fim.

 

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