Dias vão

Noites vem.

E o tempo me trai.

 

O frio que chega me paralisa

E não me satisfaz.

Não me traz alguém.

 

Eu dei uma nova chance pra vida

E um descanso pra morte.

Por um momento reatei com a esperança

Mas até então

Nada mudou.

E nada mudará o que a vida levou de mim

E nada apagará o estrago que ficou.

 

Faltam sorrisos

Sobram dores.

Há escassez de bons afetos

E excesso de temores.

 

A vida é um jogo

Uns já nascem ganhando

Outros crescem perdendo.

E nessas oscilações fica a esperança a nadar

A ver navios no cais.

Com o desespero.

 

O vento sopra à tarde

Contra o meu rosto

Sinto cheiro de mortos nos asfaltos

Nas guerras, nos condomínios

Nos shopping centers

Em toda cidade.

 

O sol já não aquece

E queima a pele.

A lua, com muito medo

Do que acontece aqui embaixo

No escuro íntimo da alma de todos:

Se esconde.

Uns olham para as estrelas e sonham

Outros, durante o frio do inverno

Se enrolam em jornais velhos

E choram.

 

E nesse jogo impiedoso

Muitos nascem morrendo.

 

Aqui,

Encontrei os juízes da vida

Os sentenciadores da morte

Os controladores do prazer alheio

E os donos dos nossos corpos.

 

Todos falam em nome de Cristo.

Todos são donos das nossas vozes.

Surdos, cegos e mudos

Estamos.

 

Tudo começa por poder e termina em morte

Alguém sempre cai para que o outro possa subir.

Jogo incerto,

Destino embaçado

Justiça injusta

Humanidade nublada.

 

E dessa desilusão

Estou partindo.

De encontro ao meu prazer

Vou correndo.

 

Vida e morte sorriam para mim

Eu aceno.

Enquanto ouço gritos de muitos insanos

Eu sei que tudo isso é um grande engano.

 

Mera vida

Mero corpo.

Tanatopolítica.

O povo contra o povo.

 

Desse delírio eu não bebo mais

Nem de devaneio, me drogo.

E dessa alucinação que somos todos nós

Eu me despeço.

Sinto o último palpitar do meu coração

E o corpo esfriar.

 

Eu estou caindo contra o vento

De volta ao meu lar.

A favor do meu grande desejo.

 

Suicidando-se

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