Manhã de domingo. 7: 04 am.

Da cozinha ele prepara a vitamina de mamão para o seu filho Kevin, de sete anos, que assiste tevê na sala de estar.
Ela está dormindo, como disse que faria ontem aos gritos, enquanto discutiam se teriam ou não uma empregada como os vizinhos do lado tinham.

César disse que eles não precisavam de empregada pois eles só tem o Kevin como filho e que ele não dá muito trabalho. Ela dizia que todas as vizinhas do bairro tinham empregadas e que só ela não tinha e isso era injusto pois não iria acordar cedo todo final de semana para fazer o café da manhã. Ele que se quisesse, teria então que acordar para fazer.
César quer comprar um carro novo e precisa economizar para isto. O seu vizinho está com uma Hilux do ano na garagem e ele se sente inferior. Vê que só comprando um carro bem melhor, enfim, se sentirá melhor, como num comercial de uma família feliz em torno de uma margarina.

César e Cláudia não transam há muito tempo. Brigam todos os dias e quando acham que não estão brigando, estão relembrando ou ressentindo brigas passadas para manter uma barreira invisível, esta muralha que eles mesmos nem sabem quem construiu. Só sabem que algo está errado no paraíso e para ambos, a culpa é do outro.

Manhã de domingo. 8:40 am.

Ele acorda apressado e olha para o relógio e percebe que está atrasado. Suspira sentindo uma angústia enquanto passa a mão na cabeça entrelaçando os dedos em seus cabelos.

Jean acorda.

“Está indo para onde?” pergunta Jean.

“Você já sabe. Eu tenho um almoço com a família da Carol às 10:30 e eu tenho que ir ao supermercado com o papai.. Já conversamos sobre isso né?

“Sim. Só não sei até quando você vai suportar carregar os pesos de duas vidas…”

“Já vai começar as lamúrias Andin?”

“Até quando eu vou ficar escondido na sua vida Jean?”

“Isso me dói sabia? E muito!”

“Eu sei, mas você também sabe que eu tenho obrigações lá fora. E as coisas lá fora exigem normas e regras para se obter sucesso.”

“E de qual sucesso estamos falando aqui Jean?”

“Será que você não vê que a vida não é só ter sucesso financeiro?”

“E você vai viver uma sexualidade clandestina até quando?”

“Até quando eu vou viver na sua sombra de medo?” “Para não dizer covardia…”

“Covardia Andin?”

“Você fala assim porque nasceu pobre e não tinha nada a perder, mas eu tenho!”

“Ah, agora a culpa é da minha classe social? Eu agradeço ter nascido numa classe pobre, sabe por quê? Por que lá existe medo que nem na sua classe, e você está enganado, a gente tem muito a perder. Mas não deixamos o medo nos controlar nem nos dominar. Enfrentamos o mundo, damos a cara à tapa, o peito à porrada e a vida para sobreviver a pobreza e a dizimação de pobres e negros que a polícia faz todos os dias. A gente não tem nada a perder, a não ser a vida!

“Não foi isso que eu quis dizer Andin, desculpe.”

“Mas você me ofende assim. Como se fosse fácil viver com o preconceito em casa, na rua, no trabalho. Mas eu enfrento! Eu escolhi enfrentar! E não fugir e nem fingir o que eu não sou para ter “sucesso na carreira”!

“Primeiramente eu quero ter sucesso comigo. Me olhar no espelho com orgulho e não com vergonha! Mas isso você não entende, porque se esconde atrás do seu paletó caro e de sua gravata soberba!” Disse Anderson, em bom tom mas tremendo a voz.

Jean sentou ao seu lado e o abraçou, colocando a cabeça em seu colo. E uma lágrima escorreu em seu rosto assustado com esta possibilidade. Até quando iria sentir vergonha de si mesmo? No que isso iria dar no fim?”

Ele sente uma enorme dor esmagar o seu peito agora.

Lembrou do seu tio, que passou uma vida inteira escondendo sua homossexualidade e acabou internado num hospício. A família só soube da sexualidade depois que ele foi internado e o psiquiatra achou melhor contar para ajudá-lo a se recuperar.

Mas Jean não quer terminar assim, mas também sente muito medo. Medo do pai, da mãe, dos irmãos, da sociedade. De tudo!

Tristeza.
Raiva.
Injustiça.
Revolta.

Todos esses sentimentos se somam dentro dele deixando-o mais perplexo, ainda mais perdido em que decisão tomar. Qual é a decisão certa? Qual será a melhor medida a tomar?

Outra lágrima escorre em sua face.

Desespero.

Levanta do colo de Anderson e olha-o nos olhos, tão verdes e tão tristonhos, dando um contraste de beleza e tristeza simultaneamente.

“Amor, eu prometo que irei resolver isto tá? Só me dá mais um tempo.”

Anderson levantou do colo do amado, ajeitando o cabelo, para não ficar despenteado.

“Vai e não esquece de colocar sua máscara.” Disse em tom amargo e muito dramático.
O celular de Jean toca. É o seu pai.

“Atende. Sua outra vida te chama.” Anderson diz num tom reprovador.

Jean não atende e prefere ir logo antes que a sua noiva ligue para ele e a situação complique mais. Respira fundo, pressionado em “ter que ser” e no que “ele realmente é”.

Está muito confuso e se sente perdido. Por que a vida é tão complicada? Pensa consigo.

Então, se despede de Anderson dando-lhe um beijo na testa e outro em seus lábios.

“Eu volto amanhã amor. Prometo. Fique bem tá? Pede Jean, com um olhar redimido.

“Amanhã à noite a gente pega um cinema e aproveitamos para comprar todas as temporadas de Game of Thrones. O que acha?” Perguntou, ao acariciar o rosto de Anderson passando a mão direita em seus cabelos cacheados.

Jean sempre gostou de Anderson. Desde a primeira vez que o viu entrando na sala de aula, com os cachos meio bagunçados como quem está chegando muito atrasado na aula. Afinal, morar em periferia é difícil quando se tem que pegar dois a três ônibus para ir a uma escola.

Viraram amigos neste mesmo dia. E Jean, sempre protetor, nunca deixou que ninguém zombasse de Anderson quando ele ia para as aulas de oficina de ballet.

Se tornaram melhores amigos. E foi na adolescência que os dois descobriram sua paixão um pelo outro. E desde então, não se desgrudam.

Carnaval, páscoa, dia das crianças, natal. Anderson sempre está lá. Já era parte da família de Jean. E a família de Jean o admira muito.

Jean o abraça forte e diz “Eu te amo” “Eu vou consertar tudo isso” “Mas me dê tempo, só mais um tempo, por favor…”

Anderson balança a cabeça duas vezes como quem concorda para evitar outra discussão. Afinal ele o ama e não consegue imaginar seu futuro sem o homem que sempre esteve presente em sua vida.

Jean lhe dá outro beijo, mas rápido e vai em direção a porta.

Joga um beijo pela mão e fecha.

Segunda. 7 horas da manhã.

Elis chega atrasada como na maioria das segundas-feiras, pois é quando o seu padrasto bebe muito e acaba a agredindo fisicamente. Ela dá seus passos lentos até o pátio da escola, como se fosse em câmera lenta. Tem medo que as pessoas percebam suas marcas. Ela é branca, de olhos verdes e cabelo longo preto. Perfeita, como dizem a maioria dos meninos da escola. É cantada por quase todos, mas ela não se importa.

Na verdade, se pudesse, preferia ter nascido feia. Assim ninguém iria notar suas marcas pelo corpo, principalmente nos braços e nas pernas que ela tenta tanto esconder com blusas e calças de frio, mesmo em dias de sol.

Uma certa vez, quando fazia aula de Educação Física, suas marcas sangraram pelas pernas e todos acharam que ela havia menstruado. Foi o pior dia da sua vida. Queria tanto dizer que não era isso, mas se dissesse a verdade também seria humilhada e talvez, duas vezes, caso ninguém acreditasse. Mas além de bonita é simpática, tenta ser educada com todos. Não quer grossa igual à mãe nem insuportável e nojento igual o padrasto.

É ótima aluna. Só tira notas boas, participa do teatro da escola a tarde e ainda arranja tempo para se dedicar as aulas de ballet a noite. Quanto mais tempo fora de casa, melhor. Melhor para a sua segurança.

Seu maior sonho é ser escritora. Assim poderá sublimar todas as suas feridas e dores aparentemente sem fim.

Segunda. 10 horas da manhã. Na mesma escola.

Emilly é uma garota adolescente como Elis, a garota mais bonita da escola. Mas não é reparada, nem admirada e nem desejada. Está acima do peso e isso é motivo de piadas e chacotas. Esses dias ao pegar a prova com a professora de Português, viu que a mesma tinha colocado uma observação no canto direito da prova. Leu “Emilly, você pode ser mais bonita. Faça um regime. Os meninos vão gostar de você, tenho certeza. Percebo sua tristeza em ser gordinha e não quero continuar te vendo assim tá? Um beijo de sua professora de Português, Graça.”
Não acreditou no absurdo que leu e preferiu se retirar da sala, fazendo um semblante de raiva para a professora, que não entendeu muito bem mas deixou que saísse.

“Qual é o problema dela? Qual é o problema de todo mundo? Eu não posso estar acima do peso e bem comigo mesmo? Eu tenho que ser magra para ser desejada e admirada?” Pensou consigo. Sentiu um incômodo, um misto de dor, raiva e tristeza quase beirando ao ódio a todo mundo.

Às vezes sentia vontade de fugir dali para qualquer lugar onde pudesse ficar em paz ou sem a presença de alguém, o que resultaria em paz.

Não consegue entender a razão pela qual as pessoas têm que estar nos padrões de beleza para se sentirem bem. Ela está bem consigo mesma. E isso que deveria importar e não ser igual às modelos photoshopadas nas capas de revistas. Como se a receita para ser feliz fosse ter um corpo perfeito e um sorriso falso nos lábios.

E nessa insanidade, todos tentam absurdos em clínicas de cirurgias plásticas, querendo ser transformados em “Barbies” e “Kens”.

Ser humano é démodé. Ter um corpo humano então é um terror. É inaceitável. A ditadura da beleza transforma todos nós em objetos onde o nosso valor está nos desejos dos outros e não na real satisfação e o orgulho por nós mesmos.

Os valores predominantes na nossa sociedade é a vaidade exacerbada, o culto ao corpo, o consumismo desenfreado por identidades líquidas que mudam a cada estação. E a professora vem tentar me convencer a fazer parte dessa loucura coletiva?

Preferia ficar isolada num canto da escola escrevendo do que ser contaminada por estes escravos modernos da publicidade reinante. E sente desprezo por esta espécie chamada “humana”.

Doce ilusão que envenena nossas subjetividades. Amarga realidade que nos tornam tão decadentes e miseráveis nesta armadilha psicológica social. Em seu diário então escreve:

“Todos estão infelizes, mas todos estão sorrindo nas fotos postadas em redes sociais com frases de autoajuda nas legendas. Todos estão livres, mas poucos usufruem de sua liberdade. E no fim das contas, estão todos presos sem esperança de uma saída.

Eterno teatro da vida. Eterna vida de tentativas fracassadas em alimentar uma imagem do que nunca somos e nunca seremos. A vida como uma eterna piada sem graça.”

Sexta. 4 horas da manhã e 40 minutos.

Marilena já está acordada, preparando o lanche do filho para levar para a creche. Na Rocinha é assim. Tudo tem que ser feito e preparado horas antes se quiser contar com a sorte. Pois até chegar na cidade para trabalhar, todo o pré-trabalho que tinha que realizar antes de chegar lá as 8 horas da manhã já era cansativo. Ainda mais na sextas, quando já se sentia esgotada psicologicamente e emocionalmente.

Sua alma cansada e estigmatizada pela cor da pele não lhe dava descanso. E quando tudo dá errado na sociedade é a cara do negro que aparece na televisão, nesses telejornais fascistas. Os negros são corrompíveis, não têm moral nem decência e dignidade. São o lado obscuro da cidade maravilhosa.

Percebe, que quando entra no escritório para trabalhar com as outras meninas, todas elas escondem suas bolsas, como se Marilena fosse assaltá-las.

Marilena sorri em sua mente enquanto pensa: bandido mesmo são os brancos que fomentam toda essa guerra contra nós, todo esse ódio por que não o servimos mais de graça. Porque fomos libertos. E com este pensamento, começa mais um dia de trabalho.

Numa certa noite na cidade maravilhosa, ouve-se um tiroteio na rua mais movimentada no bairro Brás de Pina. Elis que está saindo das aulas de ballet, sai correndo desesperada, com a alma aflita achando que vai morrer esta hora. Anderson e Jean estão no bar com os amigos, “posando” de amigos heteros quando ouvem os disparos e logo saem correndo em direção a casa de Anderson que fica bem próximo do bar. César e Claudia estão passando de carro quando ouvem os disparos e apavorados aceleram tanto o carro olhando para trás na tentativa de ver de onde vem os tiros que não enxergam Emilly que está atravessando desesperadamente a rua para se salvar também.

Atropela-a.

Claúdia grita e César para o carro para socorrer a garota que está desmaiada. Marilena levou dois tiros nas costas ao ser confundida com uma das garotas que trabalham no tráfico da favela do bairro.
A milícia não teme quem está passando e nem se intimida. Matam simplesmente. Acharam que Marilena era uma das “x9” do bairro, ou seja a pessoa que leva informações secretas da administração das bocas de fumo do bairro às outras que eles competem.

Não importa a idade nem o sexo, neste caso mata-se o “traidor” e pronto. Isto serve de exemplo principalmente para as crianças que crescendo por ali, veem isto e aprendem a não levar informações às bocas de fumo “inimigas” e neste caso, sejam fieis à sua tribo ou gangue.

Jean abraça fortemente Anderson e neste momento pensa “Se eu morrer hoje, morro ao lado de quem eu realmente amo.” E chora de emoção e pavor. Anderson teme morrer neste exato momento. Já cansou de ver vários de seus amigos de escola serem mortos pelas milícias.

“Vai ficar tudo bem amor, vai ficar tudo bem tá?” Disse enquanto enxuga as lágrimas que caem do rosto de Jean com suas mãos trêmulas de medo.

Elis vê César e Cláudia pegando Emilly e desmaiada para levá-la para o hospital público e pede para ir junto pois conhece ela da escola. “Entra logo querida! Temos que sair daqui! Grita Claúdia, desesperadamente .

Começa a chover de repente.

Jean chora como um menino abandonado na escola por sua mãe e emocionado, olha para Anderson e diz “É com você que eu vou casar.” E o beija calorosamente, numa catarse eclodente.

Dentro do carro, Elis olha para o vidro do carro, molhado e embaçado pelas gotas de chuva e pensa “Estamos todos perdidos. Sofrendo juntos o tempo todo. As tempestades que vem para nos destruir acaba por nos aproximar daqueles que parecem diferente de nós mas que no fundo, sofrem e padecem da mesma forma que todo mundo. Não importa ser branco, negro, gay, hetero, bonito, feio, magro, gordo.
Estamos juntos nessa rede de dores e adversidades. E é ai que percebemos por vezes que somos em nossa essência, mais parecidos que diferentes.

Através da dor, do sofrimento, o ser humano se rende da vaidade, do orgulho, do egoísmo inútil, que alimenta não só as mortes físicas, mas as mortes existenciais, essas que não deixa-nos dormir a noite. Que a paz um dia que eu sonho esteja em algum outro mundo, pois neste aqui nunca haverá. Nunca…” Uma lágrima rolou de seu espírito cortando-lhe a alma como uma navalha e sangrando sua consciência com o peso destes pensamentos que estão soltos e livres para lhe revelar a cruel realidade e mais desumana verdade.

“A verdade está dentro de nós, só dentro de nós…” Pensou ela olhando para o retrovisor do carro de onde dava para ver César aflito e desesperado para chegar logo até o hospital numa fé de encontrar algum leito por lá. Cláudia chora ao sentir o caos externo ao extremo e o seu extremamente interno. “Que mundo meu Deus… Espero que nada demais aconteça com essa garota Senhor, pois não irei me perdoar.” Orou chorando silenciosamente enquanto roia as unhas da mão direita entre os lábios, aflita. A morte pode vir a qualquer hora, refletiu, suspirando sua angústia.

Tudo pode acontecer a qualquer hora e a qualquer momento. Continuou a refletir sem cessar.

Sábado, durante a manhã.

Jean assumiu o seu relacionamento com Anderson para a sua família, que não fizeram alarde. Seu pai lhe dissera que já sabia de sua sexualidade e que só estava esperando ele contar, mas que teria que ser mais paciente ao contar isso à Camila, sua noiva, que com certeza não vai reagir como ele. Seus irmãos o abraçaram coletivamente. “Você nunca vai deixar de ser o nosso irmãozão!” Disse o caçula dos três filhos homens.

Jean nunca se sentiu tão leve em sua vida. Nunca sentiu tanta alegria queimando em seu espírito. Parecia que havia alcançado enfim, a paz dos céus. Estava se sentindo a pessoa mais feliz do mundo, o homem mais sortudo também.

Segunda. 7 horas da manhã.

Emilly passa bem no hospital. Está sob os cuidados da família, de César e de Cláudia e de Elis, sua nova amiga. Marilena sobreviveu aos dois tiros que levou nas costas e na visita diária, recebe o seu marido e seu filho de 6 anos que levaram margaridas e girassóis para lhe arrancar um sorriso.

Tudo em paz nesta manhã num mundo de Caos.

Tudo em paz na desordem do mundo.

Mas tudo em paz.

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