Sinto os cacos de fantasia caindo sobre minha consciência

Chuva de cacos de ilusões criadas há tanto tempo

Uma caixa de vidro imaginária

Só para me proteger

De todos

E de você.

 

Sob muitas quedas

Tive que te abandonar

Minha consciência não suporta

Nem um dia sem você

Fica um vazio desesperador

Gritando dentro de mim

Porque me arrancaram violentamente de você.

 

Desde pequeno

Eu fui me protegendo

E você me aquecendo

Agora sinto em mim

Todo o frio do mundo

Toda a neve do mundo

Caindo sobre mim

Me congelando

Me paralisando

Me enlouquecendo.

 

Agora me sinto só

Sem nenhum refúgio

Você alimentava as minhas esperanças diárias

Em doces devaneios

Em gloriosos delírios

Hoje eu tento catar tudo que restou

E já não consigo ser um inteiro.

 

O mundo se partiu

Entre o real e o imaginário

E nesse holocausto interior

Eu sou sufocado

Amarrado

E torturado.

Sem chance de um advogado.

 

Quebraram-te em mil pedaços

Pedaços líquidos

Que jamais serão unidos

Para o tormento e o desespero

De minha alma fria e sem algum calor

Para o eterno inverno em meu miserável espírito

Sem vida e sem cor.

 

Tudo é medo e tudo é dor

Nesse mundo real e ensurdecedor

Cheia de pessoas estressadas no trânsito

Se odiando

Se matando

Em busca de quê afinal?

De um lugar ao esgoto?

Onde todos os ratos tentam desesperadamente

Se enquadrar em normas e regras suicidas

Que calam a voz da nossa existência

E em silêncio ela é envenenada

E a cada gole somos drogados

Para a nossa subsistência indigna

Para a manutenção desumana do sistema.

 

Você foi minha bolha de ar

Meu respirar, meu ar

Desde a primeira cena aterrorizadora

Até a última lágrima derramada

Da minha ferida e estuprada inocência.

 

Agora eu tento me encontrar

E não me acho

Perdido entre estranhos

Como voltar pra casa?

 

Todos os dias são assim

Uma luta por sobrevivência

Entre o real e a inocência

De um mundo ideal

E de um mundo real.

 

À golpes de facadas, chutes e porradas

Eu vou sobrevivendo

Às vezes me rastejando

Às vezes imóvel pelo desespero.

 

 

Mas eu não desisto dessa busca

Dessa saída para outro mundo, quem sabe?

Uma saída para longe

Deste mundo real suicida.

 

Onde eu estava tudo era quente

Aconchegante e abrangente

Eu sentia temor

Mas era socorrido

Eu gritava

Mas era socorrido.

Agora eu me sinto só

Sem ninguém ao meu redor

Mesmo que eu esteja rodeado de amigos.

 

Não quero perder os últimos cacos de inocência

De solidão não quero viver a minha existência

Das minhas vivências quero desfrutar

Com alegria verdadeira

E não com um nariz cheio de branca poeira.

 

E às vezes, angustiado

Me pergunto:

Conseguirei suportar isso tudo?

Que desde a infância eu fujo?

E sem ela,

Tão bela e forte

Agora morta e gélida

Não será mais o meu refúgio.

 

A tristeza vem e me desespera

A insanidade ronda em minha mente

E eu temo ser devorado por ela,

Por que a realidade insiste em me castigar?

 

Vejo todos se afundando num mar escuro

E profundo

Com sorriso nos lábios

Disfarçados

Alegrias maquiadas

Almas aflitas

Espíritos desesperados.

 

Todos querem fama

Dinheiro e status

E nessa busca infame

Dançam como palhaços solitários

Em meio a fantasmas armados.

 

Eu posso sentir, posso enxergar

O que os olhos dele há de não ver

Porque não querem desejar.

 

Eu posso ouvir o grito

Em suas vozes trêmulas

De angústia extrema

De solidão mortal

De uma vida sem sentido

De um vazio existencial

Que não se preenche com roupas caras

Nem com viagens ao exterior

E nem com drogas para dormir.

 

Dá-me pena

E me dá raiva

De todos que se submetem a esse teatro opressor

Onde todos adoecem nos bastidores de sua essência

Onde as lágrimas pretas são verdadeiras

E não contaminadas por maquiagens.

São os personagens de nossa existência

Sofrendo por interpretar um personagem

Que não somos e nunca seremos

Um personagem que vive de imagens

Como narcisos

E com alegrias falsas

Com excesso de imagens fakes

Vão apodrecendo em seus quartos escuros

E miseravelmente são jogados fora

Quando o rosto já não é jovem

Nem está na moda.

 

Eu vejo a queda dos narcisos

Nossa geração é isso

É foto, é mostrar que se vive

Mesmo que seja só

Só pra convencer sua plateia.

 

É o Grande Teatro da Vida

Que alimenta toda a infelicidade em nós

Criando monstros com as nossas diferenças

E nessa vaidade que agora é virtude

Somos o que não somos

Só para aparecer bem foto e na legenda

E ignorando vamos

A nossa essência

A nossa real subjetividade

A nossa existência já insana

Sem esperança de cura

Ou de um leito em nossas consciências.

 

Todos estão insanos

E sorrindo

Todos estão falando

Mas não estão se ouvindo

Todos estão conversando

Mas não estão unidos

E assim caminha a humanidade

Para a beira de um precipício.

 

Ah, doce fantasia…

Por que te violentaram de mim?

Agora, triste eu sou

E a melancolia resiste

A tanta miséria em meu espírito

Por enxergar toda a realidade ao meu redor

E perceber que louco sou

Por saber

Por ter saído da caverna

E voltar com boas notícias.

 

Ah, bela fantasia…

O que será de mim sem você?

Existência adoecida?

Espírito perturbado?

 

Às vezes eu não consigo respirar

O ar está tão sujo

E sufocado em tantas mentiras nas propagandas

Eu volto-me a sonhar,

Pois nos sonhos eu me encontro:

 

Seguro,

Em paz

Mesmo que eu esteja no escuro.

 

Adeus,

Minha amada e amiga,

 

 

Fantasia.

 

 

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