Começou a trabalhar desde os 8 anos de idade.

Vendia peixes nas ruas do bairro de São Cristóvão ao lado de seu pai. Sentia-se inferior aos outros meninos, que quando chegavam em casa depois da aula, se uniam para jogar vídeo game a tarde toda enquanto ele tinha que trabalhar até o início da noite.

Enquanto gritava junto com o pai “Olha o peeeixee!” pelas ruas de São Cristóvão, podia ouvir alguns moleques da rua gritarem “Olha o peixeeeeiro gente!” e sentia-se tão diminuído que desejava desaparecer nestes momentos.

 

Na adolescência, decidiu ir trabalhar numa marcenaria ao lado de casa. Não ganhava muito, mas um pouquinho mais do que ganhava com o pai vendendo peixes. Queria juntar um bom dinheiro para dar de entrada num fusca quando completasse 18 anos.

E conseguiu.

 

Agora, aos 26 anos e já adulto, com o seu fusca na rua (Não queria colocar na garagem para que todo mundo pudesse ver que ele havia conseguido), trabalhava numa oficina mecânica de automóveis de uma concessionária de marca multinacional e viu-se na obrigação de se casar com Alessandra, pois havia engravidado a moça.

 

Nove meses se passaram e Alessandra deu a luz a Mateus, um menino lindo de cabelos pretos e de nariz gordinho igual ao do pai.

E Antônio chorou escondido de emoção.

 

No aniversário de um ano de idade de Mateus, Alessandra decidiu fazer uma festa bem simples para o filho, afinal, o marido não ganhava muito bem mesmo trabalhando em uma terceirizada de uma multinacional e na pressa para encontrar tudo mais baratinho nas mercearias e papelarias do bairro, atravessou sem olhar pela Rodovia Serafim Derenze e foi jogada a 3 metros do ônibus.

 

Morreu na hora.

Ao saber lá no trabalho mesmo, Antônio pensou em se matar. Foi para casa chorar e ao ouvir o choro de Mateus, sua consciência veio lhe dizer que ele precisaria ser forte, pois teria que cuidar do menino.

Passado-se 15 anos, Antônio havia se juntado com Marcilene, uma vizinha antiga da família que sempre frequentava a casa nos fins de semana.

Mateus, já adolescente e muito afeminado não suportava ficar em casa, lugar na qual nunca sentiu paz, pois o seu pai o tratava diferente de todas as outras pessoas e para evitar discutir, saia a tarde com os amigos e só voltava a noite.

Antônio nutria um ódio infinito por aquele menino que ele arduamente lutou para dar o melhor que podia e agora, se tornava uma vergonha para a casa e para toda a família.

Aceitar a orientação sexual do filho era expor ao mundo que ele havia fracassado como pai, como chefe de família e quem sabe, até como homem.

“Eu nunca trouxe ninguém diferente aqui em casa. Nunca…”

 

 

Não demorou mais um ano e Mateus decidiu se mudar para São Paulo para dividir um apartamento com um colega que conheceu pela internet. Não avisou ao pai, só deixou um bilhete dizendo “Não me procure. Não te darei mais vergonha.”

E Antônio sentiu-se aliviado, agora poderia viver com Marcilene e ter uma vida normal como a de todo mundo. Decidiu ter mais um filho ou pelo menos, o único, pois Mateus já não fazia mais parte dos retratos da família.

Mas Marcilene, para o desespero do sonho de Antônio de ter uma família comum, enquadrada nessa sociedade heteronormativa, descobriu ser estéril após inúmeras tentativas e Antônio sentiu-se derrotado mais uma vez pela vida.

Decidiu se separar de Marcilene. Ela não atendia às necessidades de uma família como mulher, então que se casasse com um homem igual à ela, estéril também.

 

Enquanto isso, na Avenida Paulista, Mateus atendia um de seus clientes mais fieis, Eduardo, um deputado estadual casado com uma médica muito renomeada na elite de São Paulo. Com Eduardo, Mateus conseguia pagar metade do aluguel do apartamento que dividia com Rodrigo, seu colega e também boy.

 

Passou-se mais 5 anos. Antônio já estava com 46 anos, vivia solitariamente em sua casa de quatro cômodos. Não tinha nem um cachorro em casa. Não queria frustrar mais seus sentimentos. Queria esquecer das tentativas de criar uma família “normal”.

 

E decidiu jogar fora todos os álbuns de fotos que mantinha guardados em seu guarda-roupas. Queria esquecer todas as tentativas fracassadas de criar uma família. E ao pegar um dos álbuns de fotos, viu uma foto recortada cair e quis por curiosidade, saber o porquê dela estar recortada. Viu que era uma foto na qual estava abraçado com o seu único filho, pois a libélula tatuada que o garoto tinha no pulso direito ficou a mostra na foto em que estava abraçado com ele.

E se sentiu mal.

Como poderia ter deixado ele ir sem questionar? Sem saber para onde iria?

Que tipo de ser humano ele havia se tornado?

E lembrou-se dos velhos motivos que o levou a tomar esta e as outras posturas desumanas com o filho.

 

E sentiu-se um idiota por tentar ser igual a todo mundo.

 

E decidiu.

 

Iria procurar o filho, não importava onde estivesse.

 

09:06

Com ajuda de um vizinho adolescente, aprendeu a mexer no computador e aprendeu a pesquisar pessoas nas redes sociais. Tentou encontrar “Mateus Alessandro de Oliveira” e não conseguiu. Digitou só Mateus e apareceu uma infinidade de Mateus no resultado da pesquisa.

“Meu Deus, quantos Mateus’s!..”

 

 

12:10

Encontrou um tal de Matheus numa dessas redes sociais, que morava em São Paulo dizendo que convivia com um rapaz de história parecida com a história de Mateus, mas o nome do rapaz era Rafael. Antônio sentiu que deveria ir lá. E mesmo que não fosse seu filho, iria tentar.

 

Pegou o próximo voo para São Paulo e as 22 horas estava no Aeroporto de Congonhas. Encontrou com Matheus, que já o esperava em um dos assentos da plataforma do aeroporto.

 

Entraram no táxi e foram conversando até chegar ao apartamento de Matheus em Campo Belo.

Chegaram no apartamento mas não havia ninguém. Travesseiros no chão, copos e pratos sujos na pia, além de cigarros apagados pelos cantos da casa mostravam que aquele apartamento pertencia a dois jovens, com certeza.

“Ele já deve ter saído para trabalhar Antônio, mas posso te levar até onde ele trabalha”. E foram juntos até a Avenida Paulista.

 

22:35

 

Pararam em frente a um hotel. E do táxi mesmo Antônio avistou um belo rapaz afeminado que deixava um homem engravatado lhe passar as mãos no traseiro em meio à Avenida Paulista.

“Como pode gente?” Pensou.

“É aqui mesmo Antônio.” Saíram do táxi e Matheus pediu que ele esperasse um pouco enquanto conversava com o rapaz bonito em frente ao hotel.

“Esse é o Antônio e quer uma noite com você Rafael” disse Matheus ao boy.

Antônio ficou assustado, não entendeu nada pois não havia dito isso pra ele mas preferiu deixar Matheus tocar o enredo do assunto, afinal estava ali para ser ajudado e não para atrapalhar.

Rafael pediu licença ao seu cliente e já foi logo estendendo mão cobrando metade do cachê ao seu novo cliente. “Metade agora e metade no motel. Passa logo coroa, que eu não posso perder tempo” e ao estender a mão direita, Antônio viu uma libélula tatuada no pulso dele e Rafael olhou paralisado para Antônio.

 

Não acreditava.

O que ele estava fazendo ali?

“Rodrigo, seu desgraçado!” Gritou Mateus.

“Rodrigo?” Indagou Antônio.

“Sim, Rodrigo ou o senhor achou mesmo que o meu nome era Matheus? Ah, me poupe dessa novela né!” Disse Rodrigo, num tom ácido.

“Que humilhação, que humilhação.”

“ Desapareçam de perto de mim seus desgraçados!”

E Mateus saiu correndo chorando pela Avenida Paulista.

Antônio e Rodrigo correram logo atrás.

 

Ouviram três disparos.

E ao dobrar a esquina da Paulista viram Mateus caído no chão sangrando pelo abdômen. Foi baleado pela esposa de Eduardo, o deputado que mantinha em segredo um caso com Mateus. A médica renomeada já estava à espreita a noite toda, esperando ele curvar a esquina. Ela só precisou pegar o revólver calibre 38 da Louis Vuitton e abaixar o vidro fumê do Nissan dela.

Apertou o gatilho e ali estava ele, caído, como já devia estar há muito tempo por tentar destruir uma família tradicional de São Paulo.

Mateus levou os 3 tiros no abdômen e enquanto se contorcia, enxergava o rosto do pai, que parecia gritar com ele “Viva, não morra por favor!” “Viva!”

 

E fechou os olhos suavemente.

 

 

 

Agora, caminhando pela Avenida Paulista todas as noites, embora sua consciência o avise que ficou louco, Antônio tenta encontrar o seu filho em qualquer esquina para poder abraçá-lo e livrá-lo dessa infinita dor que o corrói alimentando uma esperança súbita de que em qualquer momento Mateus apareça e o perdoe por tudo que ele causou numa chance única de poder viver em paz com a sua consciência e assim se ver livre dessa corrente de ações e reações destrutivas que foi a sua vida. E quem sabe enfim, poder fazer tudo diferente.

 

desanimohomem andando na chuva

 

 

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