Descobriu que era quase tudo mentira, ou pelo menos, grande parte de tudo que via. Inclusive, ela era uma grande mentira. Um súbito desejo: queria se tornar verdade. Como?

Uma ideia: toda história tem um início certo?

Então iria começar do início.

Quem ela era no início.

Bebê, pequena, frágil, inconsciente de tudo e dependente de todos. Pior: seu cérebro nada tinha. Nenhum pensamento, nada. O que ela viesse a ouvir, ver, comer, ou fazer, dependia da aprovação do seu meio. Mas esse meio, é verdade?

 

Então quis mergulhar. Em suas lembranças da infância, no seu mais profundo íntimo quis explorar o que dela era genuíno, sem influência alheia. Quase nada, encontrou. Para sua infelicidade.

Conseguiu encontrar um pedacinho dela nessa história toda que construiu uma parte de sua vida. Ela era um reflexo pálido de um espelho ela odiava. Mas sem este reflexo, quem é ela quando não está sendo vigiada?

Sem ninguém? Num quarto vazio que só dá para uma janela que se vê nada mais do que nada.

Impossível.

 

Descobriu que os outros a construía, mas também a destruía. Eles constituíam sua subjetividade, enquanto ela só absorvia e acreditava, em tudo, infelizmente. As perguntas mais naturais quando criança fazia, os adultos não sabia responder. Lembrou-se de que quando leram para ela a história da Cinderella, em que à meia-noite o encanto se desfazia, a carruagem virava abóbora, o vestido de princesa virava vestimentas de empregada, o seu sapato de cristal se manteve imutável. Como assim?

Se tudo voltava a ser do jeito que era, por que o sapato não voltou a ser a bota velha dela?

Lembra de sua mãe com o rosto perplexo, gaguejando, sem saber o que dizer. “A minha filha, ninguém se importa com estes detalhes né? Vamos continuar.”

 

Essa interrogação a invadiu de tal forma que decidiu investigar outros detalhes nas histórias infantis que lia. E descobriu: era muita mentira contada para fazerem as crianças acreditarem. Como podem contar tanta mentira para seres que estão vindo ao mundo? Quando a verdade seria contada, ou revelada?

Essas perguntas a afligiam.

Como descobrir a verdade?

Se tudo começou com histórias em que ela acreditava ingenuamente, então decidiu começar pela História.

 

Descobriu que de genocídio em genocídio, dizimação em dizimação, exploração em exploração ela chegou até aqui. Sentiu uma dor tão profunda. Sentiu-se uma assassina. Ou filha de assassinos, pois ela é branca, de classe alta.

Decidiu sofrer mais depois, queria investigar mais até cansar sua visão cheia de lágrimas de sangue de inocentes. Descobriu que o homem sempre explorou a mulher, quando os mesmos descobriram que eles também faziam parte da procriação. E assim, as mulheres se tornaram reféns de seus machos e donos. Maldita percepção, pensou.

 

Descobriu que os negros foram escravizados por causa de sua cor e circunstância. Como o continente Africano era desprovido de recursos para se criar uma colônia, assim foram capturados para trabalhar sem nada receber, a não ser alimento para que os mantivessem vivos para continuar sendo explorados.

E devorou vários livros de História, Geografia, Filosofia, Literatura. E descobriu: o mundo é feito e mantido em sua estrutura de injustiças. A força dessa estrutura está na falta de conhecimento.

A religião entra com uma promessa de uma outra vida e que para esta, os escravos teriam de suportar, com resignação, os seus sofrimentos e dores esquecidas por um deus branco de olhos azuis.

A Igreja enriquecia, o império também. As duas formas de poder se aliavam para alienar os que tinham fome de existência e não só de comer.

E assim é até hoje. O império virou Estado. A igreja continua a mandar no ventre das mulheres para a manutenção da escravidão em fortalecimento do Capital. E nessa contabilidade da morte feita pelo Estado em parceria com a igreja, sempre existirá mão-de-obra escrava para empresários, fazendeiros, além dos traficantes de seres humanos para exploração sexual e no meio disso tudo, com toda essa estratégia para a infelicidade geral das pessoas, há a repressão da sexualidade, ou seja, da liberdade.

 

Descobriram que o ser humano é um animal como todos os outros, mas com uma capacidade que não encontraram ainda nos outros mamíferos, a racionalidade. E numa outra jogada, Igreja e Estado se unem para excluir quem não se encaixa no formato procriativo da humanidade, condenando todos os outros seres de sexualidades diferentes dos que hipocritamente assumem ser de acordo com os padrões heteronormativos de uma cultura excludente, dizimista, fascista, machista, sexista e misógina.

Quem não se submete, é condenado e jogado na fogueira, como milhares de mulheres foram na Idade Média e que não difere dos dias atuais, pois milhares de mulheres são mortas diariamente por seus parceiros, que herdaram fielmente os valores cristãos dessas épocas e as herdam ainda hoje.

 

Então se alguém não é branco, católico, no mínimo de classe média e hetero, está sob a pena de morte do Estado e da Igreja. Estão todos condenados. Excluídos.

Nos noticiários se percebe todo esse circo de horror. Seja mulher, seja negro, pobre, seja homoafetivo, transexual, travesti, intersexual, estão todos na mira do machismo, do cristianismo nessa cultura de opressão, exclusão e desprazer.

Ai temos a medicina com os seus remedinhos da “alegria” de viver, para que o ser humano trabalhe até enlouquecer de vez ou morrer de infarto, estresse ou simplesmente se jogar de uma ponte.

Essa é a realidade de todos os dias.

Quem não sabe, odebece. Quem sabe, manda.

Quem tem dinheiro, compra. Quem não tem, vive de esmolas.

E assim, o mundo caminhou até aqui.

 

E quem é ela no meio disso tudo?

Há poucos dias queria ser atriz, modelo, pois todos diziam que ela é muito linda e que devia investir em carreiras que valorizassem sua beleza.

Enquanto milhares passam fome e morrem de frio ao desalento, eu vou ser mais um rosto no outdoor? Mais um rosto para enfeitar a elite branca da tevê?

Sentia nojo disso tudo.

E decidiu. Iria ser professora, para a desonra de seus pais. E iria escrever também, para denunciar através de suas palavras revoltantes, este sistema que nos oprime e nos rouba a esperança. Pois sua   consciência é agora perturbada por tudo que enxerga no dia-a-dia, e que quase ninguém dá importância, pois estão todos drogados de tecnologia, prozac’s, individualismo desumano, e principalmente: estão tomados pelo espírito capitalista que os congela os sentimentos, tornando-os zumbis que andam pelas ruas sem saber o porquê, para onde realmente vão e para onde realmente querem ir.

E decidiu mais uma vez: quero denunciar isso todos os dias. Seja na sala de aula, onde irei encontrar muitas dificuldades por conta disso, seja por ser mulher e lutar contra uma cultura que só nos objetifica, seja como escritora que terá como personagens principais, mulheres donas de suas vidas e não servas de um sistema patriarcal que só nos desumaniza.

Estou preparada para a guerra de todos os dias.

Arregaço as mangas e sigo o meu ideal de humanidade, já que este ideal atual não nos abriga, que haja revolução, pois eu estarei de pé lutando contra toda forma de opressão.

Esse será o meu destino.

 

dk_renascer_do_nada

581810_155638317929369_396431657_n-e1363470035140

Anúncios