Acordo no meio da madrugada com medo. Toco-o. Ele ainda está aqui. É difícil acreditar. Tenho medo de acreditar. Sempre tendi a sonhar demais, fantasiar demais. Talvez seja um reflexo dos anos obscuros de moradia em orfanato. Acho que era o meu refúgio.

Ele respira como um bebê recém-nascido: cansado de ser paparicado. O seu cheiro, o calor dos seus braços, suas mãos juntas e entrelaçadas às minhas preenchem o meu vazio. Acho que encontrei o meu lugar neste mundo tão perverso.

Escuto os batimentos do seu coração como quem quer acreditar que é real. Olho para os olhos dele, fechados, num semblante que me transmite mais paz que uma paisagem natural mais perfeita neste planeta.

É doído admitir para mim mesma, mas ele é a minha autoestima. Humilhante isso, eu sei. Mas nunca fui amada por ninguém, ninguém. Nunca foi fácil viver num ambiente abandonado, para crianças abandonadas. Quando aparecia algum casal para conhecer a gente, eu sempre imaginava que seriam os meus pais voltando para me buscar, para me trazer de volta a vida.

Tenho que reconhecer: sem ele, eu não existo. Sem amor é impossível viver, muito menos existir.
Às vezes à noite, antes de dormir, fico imaginando como o meu pai respira ou como a minha mãe dorme sabe? Se ela tem alguma mania ou se simplesmente deita e dorme. Se tem pesadelos como eu, que me fazem acordar numa sensação de morte súbita, como um acúmulo de todas as minhas angústias nesta vida.

Dias dos Pais, das Mães, Páscoa, Natal, Dia das Crianças: eu morria. Pensava em me jogar em frente a qualquer carro que aparecesse, assim, rapidamente: morta. As assistentes sociais faziam festas para nos alegrar, para tentar expulsar a nossa melancolia diária, mas isso era impossível.
Elas faziam o que podiam, mas não podiam fazer os que os meus pais deveriam fazer: cuidar de mim, afinal, eu sou fruto deles. De amor ou de ódio, eu não sei, mas queria saber ao menos alguma verdade deles. Mas nunca soube. As assistentes sempre me disseram a mesma coisa: elas me encontraram numa manhã de inverno dentro de uma caixa de papelão com poucas roupas, gélida e resfriada. Eu morri quando soube disso. E morro cada vez que lembro.

Então como refúgio eu imaginava que iria encontrar alguém que gostasse de mim, que se apaixonasse e que me achasse a mulher mais incrível do mundo. Ai ele me pediria em namoro e depois de cinco anos, em noivado. E no ano seguinte: o casamento. Eu perfeita, sorrindo para as lentes do fotógrafo no meu vestido branco de princesa, com os meus cabelos loiros encaracolados jogados no rosto e o resto amarrado num coque acima da nuca que segurasse o véu.

Delírios. Às vezes só temos isso para viver: sonhos, imaginações e delírios. Alterego. E eu vivi assim até conhecer o Leandro. É engraçado quando dizem que as pessoas quando se apaixonam, vêem tudo mais bonito né?
Aconteceu a mesma coisa comigo. O dia era mais limpo e azul, e nos dias de chuva, em vez de melancolia, filmes ao lado dele, devorando barras de chocolate e rindo muito um do outro. Somos encantados um com o outro até hoje. Eu o amo muito e ele me demonstra o mesmo, embora eu o veja como o meu respirar, como a razão do meu viver, como a felicidade da minha existência. Isso eu acho que não acontece com ele. E eu entendo. Ele teve amor, cuidado, presentes nos Dia das Crianças, no Natal, pais presentes nas reuniões de escola, essas coisas que algumas famílias ainda fazem.

Aperto a mão direita dele. E agradeço a Deus por ter colocado o Leandro em meu caminho. Quase todas as outras garotas viraram prostitutas. E eu cheguei até pensar nisso num momento de extrema angústia.
Mas agora eu tento focar o presente. Olho para a aliança de noivado e me sinto a mulher mais amada do mundo. Ele é meu porto seguro, minha força de vida. Mas tenho medo. Lógico, este companheiro me consome desde que comecei a ter noção das coisas, do mundo, da realidade da vida.
Esses pensamentos me pesam o coração algumas vezes e me deprime. Será que ficaremos juntos até o casamento? Ou será que ele conhecerá outra mulher e me abandonará?
Demônios me perturbando, me assombrando, como sempre em minha consciência. Então eu o abraço firme e peço a Deus que me livre dessa morte, pois não suportaria mais uma rejeição assim. Já me basta a dos meus pais.

E para dormir numa tentativa de descansar em paz eu rezo. Peço a Deus que ele não me abandone. Que nós possamos nos casar como vejo nos filmes da Julia Roberts e que tenhamos dois filhos: uma menina e um menino, que eu darei muito amor, o maior amor de mãe deste mundo.

E peço a Deus que ele não me peça divórcio após 10 anos de casamento, quando os nossos filhos já tiverem crescidos e já entenderem que Papai Noel não existe. Porque o fim da minha vida começou no início. Eu nasci perdendo. Nasci triste.

A marca da rejeição me tornou uma pessoa desconfiada, insegura e muito dura às vezes exteriormente, quando ninguém sabe que isso é só uma demonstração da minha fragilidade, das minhas inseguranças, dos meus medos mortais.

E foi por causa destas posturas que consegui ser promovida a diretora executiva da empresa que trabalho. A vida me ensinou a lidar com a dor, com a mágoa, com a revolta e pior: com a angústia. Nada mais me surpreende. Nada mais me assusta.

Só o pensamento de que um dia posso ser abandonada. E se isso acontecer, eu não suportarei e nas entranhas de meu ser eu me aprofundarei na minha maior e intensa escuridão. O lugar por onde vivi toda a minha infância, adolescência e início de juventude. E nesse lugar abandonado e escuro, cheios de sombras, sem nenhuma vida, a não ser vultos de espíritos carniceiros, eu me deitarei e me calarei.

Ninguém me encontrará. Pois estarei morta, do jeito que nasci. Do jeito que me deixaram numa caixa de papelão sujo numa manhã de inverno.

na cama sozinho

Anúncios