Sinto a gota da chuva cair sobre o meu rosto e penetrando-me a alma.
O gosto dela é amarga e triste. Fria e pesada.
Sinto o peso das nuvens cinzentas cantando “trovões” com toda a sua fúria e raiva.
Eu sinto muito medo.
E me escondo debaixo da mesa da sala.

A chuva cessa e o coração desacelera.
O medo se vai, mas ainda estou assustado.

Ouço uma música então.
Yiruma: Kiss The Rain. A minha favorita dele.
A música toca-me nas veias e o sangue se acalma.
Estou seguro nessas notas melódicas e sensíveis.
Eu então abro a porta.
Deixo a luz entrar em casa.

Vou para o piano e toco Beethoven: Moonlight Sonata.
Sinto a dor de cada nota, de cada acorde e tom.
E nos semitons eu já estou sangrando pela alma.
E ao finalizá-la eu me vejo em lágrimas.
Ahh… Doce Inverno…
Como me deixastes tão sensitivo?

Vou assistir televisão e tudo que vejo me dói.
Me dói as mentiras disfarçadas e maquiadas com belos rostos.
Me dói a promessa de felicidade através do carro do ano, da margarina e das novas tendências da moda.
Tudo para me tornar mais triste e infeliz.
Tudo para me dar mais vazio em meu próprio vazio.
Nada me satisfaz.
O tédio já não me surpreende com o seu desespero e angústia.
Nada me traz paz.

Então vou ler um livro. Ah! Os livros sempre me salvam!…
Numa tentativa alucinadora eu creio que estarei salvo de mim, do meu inverno e da noite que me atormenta.
Na tentativa de fugir ou me refugiar dessa realidade eu procuro uma outra ilusão.
Só mais uma distração e quem sabe eu talvez acredite nela e passarei a viver os meus eternos dias de inverno na fantasia?

Mas o título do livro me dói.
O nome da autora me dói: Lispector. Por que Lispector e não Verão? Primavera?
Oh! Eu quero fugir desta estação! Alguém me abrace e me salve!

Mas continuo lendo. Sangrando em cada frase do texto, em cada palavra, sílaba, letra e sons das letras, das sílabas, das palavras e das frases.
São tantas palavras que o meu espírito grita e geme de dor e de desespero. Alguém me salve dessa dor?
E quando termino de ler a história já não sei se li ou se vivi a própria.
Talvez eu esteja um pouco sensitivo.
Talvez…

Ouço um noticiário no rádio.
Alguém morreu. Como?
A voz do locutor traz em cada fonema a morte, a escuridão deste mundo, o perigo de viver, o medo de crer ainda em alguma salvação. Quanta dor neste mundo cheio e repleto de vazio. Quanta solidão…

A palavra morte traz em si um peso e abre-me as portas do meu inferno íntimo. Será que eu mereço tudo isso?
Chorando, vou-me para o quarto e tropeço num jornal velho, acho que é de ontem.
A notícia fala de um acidente em que toda a família morreu. Morreu?
Cadê Deus nessas horas?
Alguém se compadeça do meu espírito e do espírito dessas pessoas?
A morte me dói e me tira este resquício de vida que ainda me resta.
A morte sem mesmo me chamar, me dói.

E a notícia vai atrás de mim. Obsessivamente ela se pendura em minha mente, sobrecarregando os meus pensamentos.
Ah, mente obsessiva…
Estou doente e você ainda quer mais?
A notícia agora está viva e não morre nunca mais.

Decido pegar o jornal e jogá-lo fora. Mesmo não querendo enxergar nenhuma palavra nele, meus pensamentos carregados de minha obsessão em sofrer me faz enxergar que uma família acabou por morrer de fome, desnutrição.
É muita fome.
São muitos nomes. Somente nomes no jornal.
Ninguém sente. Ninguém quer saber.
Estamos todos mortos, cegos, surdos e mudos para o outro.
A Terra está em extinção e a vida nela já partiu dela há muito tempo, muito tempo…

E penso: são muitos João’s, Marias’s, Pedro’s, Joana’s morrendo todos os dias. Morrendo de fome.
São muitos pais sofrendo e chorando por não poder dar de comer às suas crianças. E essa dor me consome…
São muitos Rodrigo’s, Lucas’s e Davi’s procurando emprego. São muitos negros abandonados no submundo de guerra, violência e autodestruição nas periferias dessa Nação.
São muitos sonhos jogados no lixo ou sendo exportado à preço de “banana” para os “gringos” e assim João, Pedro e Maria disputam o mesmo pão e morrem mesmo antes de ter consciência de sua própria existência nessa nação de Judas que trai o seu próprio povo em nome do luxo, da riqueza de quem já possui e quer mais, sempre mais…

Sobra dinheiro e falta escolas, hospitais e dignidade.
Sobra corrupção e falta respeito às diferenças, falta a erradicaçao da ignorância patrocinada por lobos travestidos de ovelhas.
Sobra tráfico e morte de negros e falta Educação de qualidade, emprego e renda.
Sobra fazendas dos latifundiários e falta terra para os Sem Terra.
E diante disso tudo vejo a massa se emocionando com o futebol, com a novela e com o carnaval.
Nos desfiles: ignorância patrocinando e sustentando um sistema de roubo ao próprio povo. A porta bandeira mostrando sua potência em seu corpo num país onde a inteligência é jogada num esgoto.
O mestre da ala sapateia na cara de quem acha que esse país um dia irá mudar e nessa festa todo mundo acha divertido participar. Você não gosta de carnaval? Ah, você não é brasileiro!

Existir por aqui e em outros lugares é guerrear entre si e entre todos. O homem devorando o homem e ostentando o seu poder através do sofrimento alheio com bastante prazer.
E para esquecer tudo isso: um calmante, um uísque, um cigarro, uma droga qualquer.
Ou quem sabe uma academia? Ou a fofoca dos artistas? Ou o corpo daquela atriz da novela?

A mesma máquina construindo produtos para sua exploração e autodestruição destes robôs que insistem em achar que são “humanos”.
Um sistema sistematizado estrategicamente pelo caos. Onde o caos é a ordem de tudo e toda estrutura de mundo se prevalece nele.

Mas hei que um dia o robô acorda e se sente humano: Quero fazer alguma coisa!
Mas é tarde. O seu rosto cansado, com muitas marcas de expressões e rugas diz que ele é impotente pois quem está nas capas de revistas contente é o ator lindo da novela de adolescentes bem sorridente e musculoso. O velho robô acredita nisso: ele não tem mais potência e se lamenta em sua depressão.

A juventude é uma religião. Todos saúdam os músculos, a barriga reta, o bumbum empinado e as gírias nas horas certas. E o ator da capa de revista se droga nos bastidores em sua própria desgraça. Vende um sentimento em que nele não há. Vende algo que nunca foi e nunca será: o ideal.

E de ideais e ideais vamos sobrevivendo acreditando que estamos sãos, salvos e seguros. Estamos todos morrendo gradualmente ou aceleradamente, torturadamente e minuosamente em nossas próprias mentiras e ilusões.

Mas será que existe alguma solução?
Parafraseando Lya Luft em Pensar é Transgredir (2004, Ed. Record) algo me ilumina num canto escuro e pessimista da alma: “Porque o amor, do jeito que pode ser – é o caminho da liberdade e da grandeza – a nossa única possibilidade de salvação.”

Então eu não enlouqueço no inverno que me atormenta a alma e mesmo entorpecendo o meu espírito eu sempre espero pela primavera.
Sempre espero, senão morro de tristeza…

1jun2012---cachorro-caminha-ao-lado-de-garoto-sentado-em-yangun-em-mianmar-1338565282696_956x500

903233_1324084470469_full

corpo-perfeito-675x495

240711_chacina

Anúncios