Os pensamentos da realidade chegaram

E com eles, seus pesos

Meu coração anda se arrastando pelo chão

Mas não peço perdão e nem salvação.

 

Vivo de fantasias, vivo de delírios

Vivo de sonhos e principalmente

Vivo de imaginação.

Nela eu me refugio e busco o meu lugar no mundo

No mundo que é só meu

Meu e só.

Meu e escuro.

 

Eu estou condenado a viver só?

Em minha existência ferida e cansada

Eu já voltei ao pó.

 

Mas hoje eu não estou só

Ela está em meus pensamentos

Descarregando decepção, maldade, tristeza e perversão

Ela está me causando a morte viva: a angústia.

Ela é a dolorosa e inspiradora: escuridão.

 

Tento lutar contra ela

Ela tenta me derrubar

E eu a ela

Enquanto eu não colocá-la para fora

Expulsar toda dor que ela me causa

Ela vencerá.

 

Eterna luta

Eu contra mim mesmo

Eu contra o meu ideal

Eu contra o real.

 

Eterno confronto

Cheio de mágoas, traumas, desilusões

De um mundo onde o sofrimento traz riqueza

Para lobos brancos de olhos azuis.

 

E assim caminha minha existência

Perambulando ruas vazias

Sem sentimentos

Há muitas pessoas

Para lá e para cá

Mas ninguém me deseja “bom dia”

 

Eu abaixo minha cabeça

Como quem sente o peso da cor das nuvens nubladas

Nubladas e carregadas de dores

Dores mortais

Dores vermelhas

Dores cinzentas.

 

Dentro do ônibus vejo semblantes cansados

Olhos vagando no céu

Procurando alguma solução

E até uma salvação

E por que não libertação?

 

Da janela olho para a rua

Enquanto o ônibus acelera com sua fúria

E vejo o rosto da injustiça

Rostos da negligência

Rostos do nosso abandono.

 

Meu frágil coração se dilacera

Parte-se em mil pedaços

Eu morro com cada rosto

Com cada história abandonada pelo Estado

Com cada sonho desperdiçado e sonhado em vão

Com cada alma levada pela violência institucionalizada

Com cada mãe que lava sua roupa para não deixar faltar nada em casa.

 

Desde criança eu carreguei um mundo

Irreal, eu não sabia

Acreditava que ele existia

A inocência me permitia.

Hoje quero mudar o mundo

Bendito e cruel desejo de criança.

 

E como não há lucidez que traga tal esperança

Eu me recolho com minhas asas quebradas

E sinto medo.

Assustado com tudo que vejo e enxergo

Eu só quero desaparecer.

 

Nesse mundo em que sou obrigado a viver

Vejo fantoches encenando os seus melhores papeis

O de não ser eles mesmos.

Suas mãos estão agarradas a preconceitos

Alimentados pela maldita ignorância controlada pelo governo.

 

Vejo em cena

Fantoches encenando suas vidas

E nos bastidores, sem cordas e sem comandos

Suicidam-se coletivamente em seus armários.

Todos estão doentes.

Todos estão cansados.

 

Mas há muito sangue para se derramar

Há muitos corpos para se enterrar

A Terra girando, não se pode parar

O dinheiro nos movimenta e nos aprisiona.

 

Dizemos “somos cristãos”

Mas seguimos fielmente o ideal do Capital

Dizemos “somos boas pessoas”

E pregamos o ódio, exploramos comercialmente o sofrimento alheio

E alimentamos mais preconceitos.

 

Abraçamos ideais suicidas que só nos deforma o espírito

Só estupram a nossa liberdade individual

Convencendo-nos que na resignação há uma premiação incerta

Obedecemos nossas instituições como crianças medrosas até o dia de nossas mortes

Destruindo toda potencialidade de nossa existência.

Que liberdade é essa?

 

Perseguição atrás de perseguição

Corremos uma vida de repleta de intervenções

De regras, de etiquetas, de certo, de errado

Do justo, do injusto, do bem e do mal.

Não há meio termo: não há ser humano.

Somos produtos desde que nascemos.

Somos programados para alimentar a mão-de-obra da Super Máquina de Fazer Dinheiro

E no meio do processo, nos perdemos.

 

Minha lucidez está por uma faísca

Como uma lâmpada velha tentando manter sua luz

Fraca, sem força, ela ainda tenta

Conscientemente em vão, ela romanticamente acredita

Embora, saiba que a derrota é a pura iminência.

 

Quem sabe em alguma outra existência eu encontro o meu descanso

E encontre a luz permanente

Ou quem sabe, na morte eu encontre a vida esquecida.

Por que desde que nasci o meu coração sangra

Sem esperança de uma estanca.

 

E assim eu vou

Tentando ilustrar a minha dor em palavras

Tentando me manter vivo em meio a pesadelos reais

Tentando manter meus frágeis sonhos em meus românticos ideais.

 

Então sinto que não existo

E da minha inação eu resisto

Em meio à melancolia que me esmaga o peito

Eu sobrevivo

Para dar testemunho do mundo em que eu vivo

Sem a mínima dignidade e respeito

Longe de sermos uma humanidade

Longe de termos enfim,

Algum sossego.

anjo caido

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