Passo na rua mais lotada do centro da cidade

O dia está nublado, cinza

Um temporal ameaça desabar

E eu estou sem guarda-chuva.

 

Pessoas correm para lá e para cá

Perdidas de si e confusas

Ou comprando desesperos ensacolados

Embrulhados por grandes grifes?

 

Eu sou a marca mais falada do momento

O estilo mais moderno de corte de cabelo

Eu sou o mais conectado

Eu já sou tanto que já não sei quem sou

Invisível torno-me de mim mesmo

Um desconhecido sou neste corpo cheio nomes.

 

Vejo uma garotinha caminhando a lentos passos

Com o seu cachorrinho na coleira

Ela apanha todo o lixo que encontra no chão

E guarda tudo em um saquinho de papel

Pergunto-lhe, por que faz isso moçinha?

Ela me diz que é para salvar o planeta da nossa destruição.

 

Desvio-me a atenção dela e viro-me para atravessar a rua

Entusiasmada continuava ela.

Que inveja. Que alegria, que ânimo e que força de vontade!

Então eu me curvo diante de minha tristeza escura de tanto passar pela escuridão.

E ela continua a passear com o seu cão, salvando o mundo!

 

As nuvens trovejam

Cantam choro a derramar

Dor de perceber que estamos todos loucos?

 

Lá se foi o nosso Sol Totol!

Vamos nos preparar para dançar na chuva?

O cachorro parecia entender tudo que ela dizia e balançava a cabeça como se concordasse.

Vem chuva! Vem nos molhar!

 

Os pingos começam a cair e todos correm para abrir seus guarda-chuvas

Eu me molho em minha melancolia, há razão para tanta euforia?

Afinal, é só uma chuva, o que estamos temendo?

 

Toda a podridão que produzimos não lhe causam nenhum susto?

Consumindo tudo que vê, para onde acham que vai isso tudo?

Ah, minha esperança está cansada.

Está cansada…

 

Vejo a menina abraçar a chuva

Rindo, dançando com o seu cãozinho

Que lindo!

Reacende-se uma emoção em meu peito

É a esperança?

Então venha e reacende o meu coração

Me aconchegue em seus braços com toda proteção.

Pois tudo que vejo é destruição, caos e escuridão.

 

Todos param para ver a menina que continua a dançar na chuva

Essa garota não tem mãe? Perguntam

E ela e o Totol se divertem pulando em poças de água.

Tudo é alegria. Tudo é emoção viva!

A vida está em qualquer lugar

A alegria pode chegar quando você menos esperar.

 

E todos fecham os seus guarda-chuvas e vão para a rua celebrar

Dançam com a menina a alegria do contato com a chuva

E sentem-se vivos como se também fossem também crianças

E assim perceberam, só as crianças vivem!

 

Se abraçaram como se fossem uma família

E rodas foram se fazendo para todos brincarem

Ninguém se preocupou com resfriado, roupa molhada ou cabelo despenteado.

A vida era isso, contágio por amor, fraternidade e esperança.

Naquela dança se abraçaram raças, classes, sexualidades e pensamentos.

Quem passava e não sabia o que estava acontecendo achava que era uma espécie de histeria coletiva.

“Cruz credo” e iam.

 

Como já escreveu Nietzsche em “Assim Falava Zaratustra”: E os que foram vistos dançando foram julgados insanos pelos que não conseguiam ouvir a música.

 

Viver se sentindo “vivo” é uma loucura.

 

dancando_na_chuva

 

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