De manhã ele vai e toma o seu ônibus lotado. E vai lembrando-se de cada momento vivido e que nunca será esquecido. Chega à Editora que trabalha sempre mais cedo que os outros.

Ele sorri, cumprimenta, aperta a mão de todos com firmeza cumprindo todas as etiquetas.
E aguenta.

Então à noite tomando o seu caminho de volta pra casa decide fazer diferente.
(Vou beber..)

E chegando no boteco do Seu Tião, sentando-se na primeira mesa vazia e aparentemente suja, pediu uma garrafa de conhaque. E no gosto de cada gole, sua visão escurece e os fantasmas de seus ex-amores, feridas e mágoas familiares, fracassos profissionais então ganham voz e gritam em sua mente para o seu tormento.

Coloca a mão na cabeça.
(Não, por favor, vão embora..)

Ele está enlouquecendo?
Parece.
Dor, angústia, desespero.

Uma atmosfera sombria pairou em sua consciência e numa visão caleidoscópica percebeu que aos 58 anos ainda não havia encontrado algum sentido para tudo isso, não encontrou as respostas para todas as perguntas que sempre lhe afligiram a alma que sangrava sem chance de uma estanca.
(Garçom, traz mais uma bebida por favor!)

Tomou sua última dose, e o gosto era de decisão.

Abraçou o garçom, conversou com aqueles velhos pobres bêbados enquanto o último gole ainda fazia efeito.
Tomou coragem e também dançou, o que nunca fez pois foi ensinado que homem não dança. Só observa.

Dançou sem medo, sem vergonha. Estava livre de tudo que lhe disseram a vida toda.

Então, numa sensação de liberdade que o tomava cada vez mais que se libertava de seus medos ele cantava desafinado e divertia a todos naquele bar de esquina.
Contou piadas, gargalhou quando caiu e pela primeira vez, se perdoou pelos todos os erros cometidos na adolescência, na juventude e os de agora.

Estava leve, livre de toda culpa carregada inutilmente durante todos esses anos.

Então ele já estava pronto.
E uma lágrima desceu em seu cansado rosto.

Despediu-se e agradeceu àqueles pobres velhos de bairro carente pela prazerosa e talvez também pela melhor noite de sua vida.
Sentia-se alegre, feliz como nunca.
Dirigiu-se ao carro, pois já vinha chegada a hora.

Estacionou o carro e caminhou a imensa escadaria até cansar, afinal era a última vez que iria sentir cansaço. E quando chegou lá, viu o patrimônio cultural da humanidade lá de baixo com os seus gigantescos braços abertos.

Ah Cristo..
Eu cansei disso tudo e você?
Ainda espera por um milagre?
Quer um conselho?
Desça da divindade e venha novamente.
Os sentimentos são outros agora..
São outros…

Então se encheu de certeza.
Ele tinha esse direito.
E todos esses anos de resignação? Suportando tudo?
Pai e mãe violentos. Amores traiçoeiros. Corrupção. Violência. Injustiça e desigualdade social. Tanto descaso humano posto à prova todos os dias na televisão, nos jornais. Todos estão loucos achando que estão saudáveis e belos.
Quanta insanidade…
Quanta ilusão…

Ele sabia que era diferente demais. Sempre se sentiu um estranho nesse mundo cheio de redemoinhos suicidas.
E decidiu partir.

Para o Mundo dos Mortos ou para a Terra Prometida?
Nada disso importava mais.

A vida tinha lhe dado um grande castigo que o Paraíso seria uma compensação obrigatória de tudo isso né!
Mundo dos Mortos? O que é o Mundo dos Mortos diante de um mundo cheio de pessoas caminhando em seu autodestrutivo caminho sem previsão de um bom destino?

Então na dúvida, decidiu arriscar.
Certo que era um direito depois de tantas obrigações cumpridas nessa sua detestável vida. Nada poderia piorar.
Nada.
E como um cordeiro em seu santo sacrifício, aceitou o seu fim com auto-dignidade e auto-respeito.
E de braços abertos como o Cristo Redentor,
Se jogou.

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