19:00.

Ela não para. Corre por toda a casa procurando o que não fez corretamente e que desesperadamente tem que corrigir.

As roupas estão secas?

Foi até o quintal e lembrou que não fazia um minuto que as havia colocado no varal para secar para que ao acordar na manhã seguinte, passasse bem rápido o uniforme do trabalho e pudesse fazer o café antes dele acordar.

Sentou-se no sofá e decidiu ficar esperando do jeito que ele gosta. Sentada, tomada banho, com suas trancinhas jogadas para frente, como toda menina bem comportada deve ser.

Parecia um trovão, mas era só o som dos sapatos subindo as escadas e se aproximando perigosamente dela.

Estado de alerta.

Mãos trêmulas, pés que não conseguiam alcançar o chão porque a realidade dava medo.
Sentir dava medo.
Roia as unhas compulsivamente e num modo desesperador arrumava suas tranças para frente para que não fosse reprovada ao ser vista.

“Joana, onde está o meu chinelo? Mas que droga, já disse que detesto chegar e ter que colocar os meus pés nesse chão!”
“Quantas vezes terei que repetir isso? Ou você faz de propósito só para me irritar?”
“Ahh menina.. Já disse que seus dias estão contados né?..”

Era possível sentir de longe.
E o cheiro era de algo tão forte que a deixava tonta e enjoada.
Ela perguntou se ele precisava de mais alguma coisa e ele gritou para que ela fosse para a cama e parasse de enchê-lo de perguntas.

(Garota estúpida..)

Então ela correu para o seu quarto e deitou em sua cama de lençóis velhos e ficou olhando para o teto sentindo o seu coração fosse pular para fora de seu corpo.

Resolveu pedir a ajuda de Deus e com sua voz doce, perguntou a ele porque ela vivia ali enquanto as amigas dela pareciam ser tão felizes.

Silêncio.

Resolveu esperar até ouvir algum som, algum sinal ou qualquer coisa que servisse de resposta ou quem sabe, uma porta mágica que a levasse para um lugar infinitamente distante dali onde poderia viver feliz, sem medo, sem repressões.
Ela só queria estar segura no seu mundo, só segura como toda criança quer se sentir no mundo real.

Toc! Toc! Toc! Toc! Toc!

“Joana, abre essa porta! Por que você a trancou sua desgraçada? Abra essa porta ou eu vou derrubá-la com um soco!”

Ela compulsivamente rezava e rezava e rezava..
“Não deixe Senhor ele fazer isso comigo, por favor..”
“Eu sou uma menina boa, não sou?”
“Eu faço todas as tarefas de casa, só tiro notas boas na escola, então me salve Senhor, me salve!”
“Me tire daqui agora, por favor..”
E começou a chorar.

 

Silêncio.

 

E mais silêncio.

 

Então ela teve que abrir a porta.

Ele se aproximou e começou a desabotoar o seu vestido dela. E enquanto a dor lhe tomava por dentro e por fora, lembrava da mãe, que quando viva, lhe dizia que todas as crianças eram anjinhos de Deus e que cada uma delas tinham o seu Anjo Protetor para protegê-las das maldades do mundo.

Enquanto ele continuava a se satisfazer da ingenuidade e da inocência já violentada várias vezes à custa do seu corpo frágil e indefeso, ela tentava chorar sem fazer muito soluço e  refugiava-se  nas palavras de sua mãe e rezava em sua mente pedindo socorro para o Anjo Protetor livrá-la daquele mal.

 

E o Anjo demorou.

 

Ele se satisfez.

 

Ela sangrou.

 

Estava sentada na cama, com o vestido todo amarrotado, molhado e vermelho de sangue e fitava o chão paranoicamente como se estivesse conversando com ele.

“Por que você não veio Anjo?
“Por que me deixou aqui, sofrendo?”
“Eu não sou uma boa menina, não sou?”
“Ou você está muito ocupado, está?”

“Eu vou deitar e te esperar. E você pode me fazer dormir tá?”
“É só me abraçar e ficar do meu lado até quando ele voltar. Ai você me defende e pede para ele nunca mais me tocar, nunca mais….”

As lágrimas da inocência perdida ardiam os seus olhos enquanto ela esperava o Anjo.

 

21:00

 

A fé cedeu à dor, que era bem maior e sangrava em seu corpo de menina.

Na esperança ingênua de criança, deitou-se mas antes arrumou o outro lado da cama para que quando o Anjo viesse lhe salvar, encontrasse o lugar dele arrumado. Ela tinha que ser uma boa menina.

 

21:30

Não conseguia dormir. “Acho que tenho que rezar de novo, pois ele pode estar muito ocupado com as outras crianças e acabou não me ouvindo e me esqueceu.”
Ajoelhada ao pé da cama, rezou mais umas dez vezes para que não fosse esquecida.E deitou-se novamente na inocente esperança que existe em todos seres puros acreditando que o Anjo viria ao seu socorro e iria tirá-la daquele lugar tão escuro e cheio de sombras.

 

22:00

Oitenta e nove anos. Solitária em casa desde que ele morreu de cirrose em seus braços,  estava ela sentada em frente à porta aberta do seu quarto em sua cadeira de balanço ainda à espera do Anjo enquanto assistia o seu desenho animado favorito (o mesmo que assistia o dia inteiro).

Seu coração então, cansado de bater ainda à espera da luz dos céus, resolveu dar paz aquela velha criança e parou de bater pois já não agüentava sofrer com aquele espírito preso nas sombras à deriva da ilusória esperança de um dia ser salvo daquela escuridão e ter que parar de carregar tamanha amargura contida naquela eterna alma sofrida de criança atormentada por aquele fantasma que ela chamava de pai e que só lhe deu  insegurança, dor e desesperança enquanto ela só queria paz, amor e segurança.

E agora enfim, descansa e vive em paz a sua infância morta.

menina assustada boneca quebrada

Anúncios