De susto, caiu violentamente contra o guarda roupa quando viu as pernas do seu irmão mais novo se debater dentro da mala. Ir até aquele lugar de novo era como abrir as portas do inferno onde passou toda a sua infância. Mas Sandra queria conhecer a sogra, a grande mulher que criou aquele homem tão generoso, de personalidade incrível e caráter inquestionável.

Não podia negar isso a ela.

Os vizinhos passam levando o corpo do seu irmão num caixão de tábuas de madeira improvisado pela mãe, afim que o coitado tivesse pelo menos um pouco de decência ao ser enterrado.

Eu deixei ele morrer?…
Pensava o tempo todo, chorando.

Passar pela aquela rua onde esperou por tanto tempo o seu irmão voltar não era fácil.
Ele sabia que o irmão tinha ido roubar goiaba no quintal do vizinho e que logo iria voltar.

Foi até o banheiro chorar, como fez por todos esses anos quando percebeu que o seu irmão não  voltaria mais e pediu a Sandra para fechar a mala, pois estava ocupado fazendo a barba. Chorou desesperadamente, mas sem soluçar. Aprendeu com a mãe que chorar era coisa de menina.

Homens não choram

Olhou o relógio: 13:14.
Ainda faltava 1 hora e 16 minutos para chegar ao aeroporto e pegar o vôo para Vitória.
Ouviu o barulho da mala fechando e os passos de Sandra indo novamente para a sala.
Abriu a porta bem devagarzinho, sem deixar que as dobradiças gritassem o seu medo.

Ahhhhhh!!!!!

Estavam brincando de esconde-esconde e Júlio, sempre danadinho quis se esconder o melhor possível. Foi até a árvore do quintal, subiu nela enquanto Guilherme contava o pique. Ao ver o joão-de-barro no galho quis olhar a casinha dele para ver se tinha filhotes e escorregou, caindo dentro da bacia de água fervente que estava embaixo da mangueira em meio as roupas das “madame” da Cidade Alta.

Guilherme começou a procurar Júlio e como ele sabia se esconder muito bem, sabia que teria que procurar em todos os buracos do quintal.
Viu dois pés se debatendo de dentro da bacia de água e correu apressadamente para bater o pique.
“Júlio te achei. Já pode sair daí de dentro!”

Júlio não tinha voltado correndo como sempre fazia. Foi ver o que o danado estava aprontando.

 

O que aconteceu?

Por que tem tanta gente ali?

Sua mãe está gritando, chorando com o seu irmão nos braços. Morto.

Os vizinhos chegavam para acudi-la e gritavam “chamem a ambulância, chamem a ambulância”.
Nunca esqueceu aquele dia.
O irmão morrendo e ele brincando.

Também não se esquece daquele homem velho, com roupas costuradas usando um chapéu de couro sujo gritando bem alto “E você não fez nada moleque? Deixou o seu irmão morrer?”
As lágrimas desceram.
Mais uma alucinação.

Então, decidiu.
Não iria reviver a culpa que o tornou obsessivamente perfeito para as pessoas.

E do quarto, gritou:
“Amor, perdemos o vôo.

Vamos ficar em casa,

seguros…”

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