Não entendia o porquê de sua tristeza diária. Somente a sentia, a todo instante, todo dia.

Buscando respostas para tudo o que o perturbava, Jorge decidiu que não mais suportaria continuar assombrado pelo o que sentia.
E no meio da caminhada que fazia todos os dias na Orla de Camburi, resolveu então voltar. Tirou o tênis. Queria sentir sua pele tocando o frio da areia naquela manhã nublada em sua cidade e em sua alma e sentou-se em frente ao mar.

A sua alma necessitava de silêncio em meio a esse caos que vivemos, em meio à sobrevivência que somos condicionados enquanto tentamos nos encontrar em algum lugar em algum momento.
E pôde sentir a calmaria.

A brisa do mar tocava sua pele docemente e quando de repente, ouviu uma criança chorar. Num insight, a sua infância veio no instante em que viu aquela criança apanhar.

E ouvindo a canção das ondas, mergulhou nas tempestades turbulentas que formavam a sua consciência e pôs-se a nadar no abismo de sua pré-consciência de ondas fortes que quebravam em sua inocência.

A criança que vira ainda chorava por sentir o peso das mãos do pai em seu rosto.
Em sua mente, aquela cena transformou-se numa gigantesca porta que dava para um castelo assombrado por fantasmas habitando numa sedutora escuridão.

Nesse castelo o rei era o medo
E os fantasmas, seus soldados.

E ao abrir o imenso portão deparou-se com uma criança caída, pálida e congelada. Estava morta.
Em seu vestido rosa de renda estava escrito: “Inocência”.

Viu pedras por todo lado.
De um quarto escuro, apareceu um espírito chamado “Imaginário”,
Dizendo que tentou muito salvá-la, mas as pedras que caíram sob ela foram fatais à sua fragilidade.
Sendo assim, seu espírito está adormecido num abismo que para sempre ela adormecera. E a partir dali, a Inocência só encontraria a vida novamente quando o seu espírito se libertasse do reino das trevas, lugar que somente Jorge poderia tirá-la e resgatá-la.

Jorge então sentiu um forte vazio e viu-se pequenino, trancado num quarto escuro e frio e pôs-se a lembrar do que na infância lhe fazia chorar quando a dor era tudo que ele podia encontrar em meio o caos que vivia, naquilo que ele chamava de “lar”.

Percebeu que sua alma estava acorrentada à pouca infância que pôde viver, pois sua inocência foi cruelmente violentada antes mesmo dele ao menos entender o porquê.

A sua infância lhe foi roubada por aqueles que cegamente o mantinha preso em tradições e costumes sombrios.

Sendo assim, resolveu-se levantar como alguém que tivesse encontrado um tesouro perdido.
Como alguém que tivesse encontrado enfim, o seu lugar.

Prometeu a si mesmo que ninguém mais iria o machucar. Olhou para o sol que suavemente descia no crepúsculo e pela primeira vez já não temia a escuridão iminente que vinha.

Pegou sua pesada mochila como quem carregava uma alma pesada de dores, traumas e fobias e pôs-se a caminhar com um sorriso que nunca sorrira.

Porque pela primeira vez na vida, resolveu criar um quarto iluminado onde habitaria amor, a esperança e a alegria.E nada mais o incomodaria, pois enfim, tinha encontrado a razão da sua morte precoce depois de mergulhar na infinita dor de sua melancolia.

E por fim, depositou em seu coração
Fé, confiança e coragem
Para enfrentar o seu castelo de medos
E espantar todos os seus soldados.

E teve coragem para enfrentar a vida. A partir daquele momento, ele criaria um chão para pisar  todos os dias. Mesmo inseguro, mesmo amedrontado com este mundo que sempre o assustou muito, ele iria pisar, arriscar, mesmo com receio de cair ele iria tentar.
E não iria desistir.

A confiança em si mesmo agora era tudo que tinha para resgatar aquela linda criança acorrentada num submundo de tortura e agonia.

Então Jorge ergueu sua cabeça e partiu para uma nova caminhada.

 

homem andando na chuva

 

 

 

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